
(con)fisco já dá por perdidos mais de 12 mil milhões de euros de receita
O jornal de negócios vende o lamento do estado: 12 mil milhões de euros de receita que o (con)fisco considera perdida - mais 6% do que em 2024 - e 29,5 mil milhões em cobrança coerciva, segundo a análise do tribunal de contas. O enquadramento faz o resto do trabalho: dinheiro que nunca chegou a ser cobrado aparece como prejuízo, como se a coleta futura fosse propriedade da máquina e a falha fosse de quem não pagou, sem uma linha sobre o que torna estas dívidas impagáveis nem sobre quem é tratado como devedor por já não ter nada. Fica no ar a ideia de que há um buraco a tapar - e quem o tapa, outra vez, é quem ainda tem salário, casa ou negócio de pé.
Conteúdo difundido por uma fonte financiada, protegida ou condicionada pelo estado, usado para normalizar coerção, burocracia e dependência política.
Análise Libertária
Há um número que interessa mais a quem cobra do que a quem paga, e o jornal de negócios publica-o como se fosse um acidente contabilístico: no final do ano passado, o (con)fisco dava como praticamente perdidos 12 mil milhões de euros. É mais 6% do que em 2024. O retrato vem da análise do tribunal de contas à conta geral do estado, divulgada a 29 de setembro. A esse valor acresce outra coisa, bem mais concreta: 29,5 mil milhões de euros em cobrança coerciva, dívidas que a máquina continua a tentar arrancar.
Repare no vocabulário escolhido: "receita perdida". Perder implica ter. Ninguém perde aquilo que nunca chegou a ter na mão. Quando o estado diz que perdeu receita, está a afirmar que aquele dinheiro já era dele e que alguém lho tirou. Só que não houve troca, não houve acordo, não houve venda de nada. Chamar receita a isto é vestir a cobrança forçada com fatos de comércio. Uma mercearia perde receita quando ninguém lhe compra o pão. Um cobrador não perde coisa nenhuma quando a pessoa a quem quer tirar dinheiro não tem dinheiro: apenas não consegue tirar.
Depois há a pergunta incómoda. Quem decide que uma dívida está perdida? A mesma entidade que a inventou. Não existe aqui um juiz independente a declarar falência, nem um credor a assumir que o calote é dele e a seguir com a sua vida. Existe um critério administrativo: a partir de certo momento, a dívida passa a "de difícil cobrança" e sai das contas. De um dia para o outro, o buraco deixa de existir no papel, sem que ninguém tenha pagado ou sido perdoado. Isto dá a quem cobra um poder curioso - escolhe quando mostra o número e quando o esconde. E revela a arbitrariedade da coisa: é o estado que decide quem existe fiscalmente e quem é apagado, conforme aquilo que lhe convém no momento.
A resposta oficial a tudo isto é sempre a mesma: modernizar. A "autoridade tributária" tem novo diretor-geral, chegado da informática e sem experiência na área dos impostos, escolhido entre 17 candidatos e apresentado como uma escolha técnica para pôr a máquina a funcionar melhor. Chega com promessas de automatização e inteligência artificial. Mudar o rosto da máquina não muda a máquina. Coerção com software novo continua a ser coerção, apenas mais rápida. O estado passa a saber mais depressa quem tem o quê, para lho tirar mais depressa. A base de dados financeira e patrimonial que a "autoridade tributária" gere é a maior do país - e o entusiasmo tecnológico não é sobre a sua vida, é sobre a sua carteira.
Vale a pena olhar de frente para o outro número, os 29,5 mil milhões de euros em cobrança coerciva. Cobrança coerciva não é uma carta a pedir um favor. É penhora, salário agarrado, conta bancária bloqueada. O processo tem pouco de delicado: quem não paga nem recorre vê o caso seguir para execução, e para o cidadão comum a dívida ao estado aparece na conta antes de aparecer no tribunal. A máquina reclama ao mesmo ritmo a que gasta.
A este andar, o bolo das dívidas que o (con)fisco classifica como incobráveis só cresce. Não é preciso grande sabedoria para perceber uma parte do mecanismo. Quem é esmagado pela carga fiscal deixa de conseguir pagar; quem fecha a porta não passa a dever menos, passa a dever tudo. A falência resolve a vida do dono, não resolve a dívida ao estado - o buraco é empurrado para o ano seguinte, com juros por cima.
No fim, é isto que o número revela. A máquina que cobra à força, e cada vez com melhores ferramentas, admite ao mesmo tempo que cada vez mais não consegue cobrar. O dinheiro que ela "dá por perdido" nunca foi dela. Era de quem o ganhou, e essa parte nunca volta.
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- Comerciantes e pequenos empresários com dívidas antigas ao (con)fisco - Já levaram com penhoras e planos de pagamento e vão querer ver quanto o estado admite que nunca vai cobrar: mais de 12 mil milhões de euros de receita dada como perdida, num aumento de 6% face a 2024.
- Contabilistas e técnicos de contas que tratam de execuções fiscais - Passam os dias a negociar prazos e a explicar penhoras aos clientes, e estes 29,5 mil milhões de euros em cobrança coerciva mostram-lhes onde está o grosso dos processos que ainda lhes vão cair em cima.
- Quem pondera abrir ou fechar um negócio em Portugal - Ver o estado a dar mais de 12 mil milhões por perdidos e a manter 29,5 mil milhões em cobrança coerciva é um retrato do que pode cair sobre quem arrisca capital próprio, e ajuda a decidir se vale a pena.
1Cobrança coerciva (enforced collection)Cobrança à força.
Quando alguém não paga, o estado não desiste: usa o poder que tem para ir buscar o dinheiro. Pode penhorar contas, salários ou bens. No artigo, a dívida em cobrança coerciva chegou aos 29,5 mil milhões de euros.
2Receita fiscal perdida (lost tax revenue)Dinheiro que o estado esperava cobrar e não cobrou.
O estado conta com o dinheiro dos impostos antes de o receber. Quando a cobrança falha, trata esse valor como receita perdida. No artigo, mais de 12 mil milhões de euros foram dados como praticamente perdidos.
3Dívida de difícil cobrança (hard-to-collect debt)Dívida que o estado já considera quase impossível de receber.
Não é uma dívida perdoada nem cancelada. É dinheiro que o estado continua a dizer que lhe é devido, mas que já não conta receber. No artigo, esta categoria subiu 6% face a 2024.
4Conta Geral do estado (General State Account)O retrato anual das contas do estado.
É o documento onde o estado apresenta quanto cobrou, quanto gastou e quanto ficou por cobrar. O tribunal de contas analisa esse documento. No artigo, é essa análise que revela os valores da dívida.
5tribunal de contas (Court of Auditors)Organismo que fiscaliza as contas do estado.
Verifica se o dinheiro público foi usado como devia e se as contas batem certo. Não decide impostos nem cobra dívidas: apenas examina. No artigo, é a análise do tribunal de contas à Conta Geral do estado que sustenta os números.
6Carga fiscal (tax burden)Quanto do que ganhas vai para impostos.
É o peso total dos impostos sobre o rendimento, o consumo e o património. Quanto maior a carga, mais difícil fica pagar e mais gente entra em incumprimento. No artigo, o aumento da dívida incobrável é um sinal de que a cobrança já não alcança tudo o que o estado exige.
7Incentivo (incentive)Aquilo que te leva a agir de uma certa maneira.
Quando o custo de pagar sobe, mais gente deixa de pagar ou foge. Quando o custo de cobrar sobe, o estado gasta mais para receber o mesmo. No artigo, a subida da dívida incobrável mostra que o sistema de cobrança está a perder eficácia.
Informações
em 30 de setembro de 2026
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