Voltar ao propaganda.pt
Anabela Carvalho: "A maior parte dos grupos de jovens de activismo climático dissipou-se
SitePropaganda estatal· Público· Clara Barata

Anabela Carvalho: "A maior parte dos grupos de jovens de activismo climático dissipou-se

O "público" publica uma entrevista sobre o recuo do ativismo climático jovem em Portugal que serve menos para explicar o fenómeno do que para repor a culpa fora de quem governa: o obstáculo é a falta de receptividade política, a criminalização dos protestos e a televisão que não deu palco suficiente a quem pede mais planeamento da economia. À volta do texto fica a moldura do costume - investigação paga pela FCT, conferência na capital verde europeia, o presidente da república em pose de ouvinte atento - e nenhuma pergunta sobre a conta: o dinheiro que era dos "contribuintes" a pagar estudos, cimeiras e a máquina que decide por eles.

Fonte de propaganda estatal

Conteúdo difundido por uma fonte financiada, protegida ou condicionada pelo estado, usado para normalizar coerção, burocracia e dependência política.

Legitimação por autoridade académica financiada pelo estado - A peça difunde o diagnóstico como ciência neutra, mas a investigação que o sustenta foi "financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia": o dinheiro retirado à força aos "contribuintes" paga o estudo que depois serve para pedir mais intervenção política sobre esses mesmos "contribuintes".
Patologização do ceticismo - Quem se afasta da agenda climática ou rejeita as tácticas de rua não é tratado como alguém com juízo próprio, mas como sintoma de deriva ideológica: "Vemos claramente nos jovens um crescendo de curiosidade, se não mesmo de alinhamento com as direitas".
Inversão de papéis entre agressão e repressão - As consequências de actos contra pessoas e bens são reescritas como perseguição política, sem uma palavra sobre quem pagou os estragos nem sobre a escolha de quem os praticou: "mudaram-se leis para penalizar o activismo climático".

Análise Libertária

Os números aparecem no fim da entrevista e desmentem o tom de tudo o resto. Num inquérito a alunos do 6.º, 9.º e 12.º ano, feito em 2022/2023 no âmbito do projeto bYou, a preocupação dos jovens com o ambiente e as alterações climáticas anda na ordem dos 4,07%. Fica abaixo do crime e da violência, com 4,28%, e dos direitos humanos, com 4,23%. A política fecha a tabela, com 2,99%. Quando a pergunta é sobre o que se fala com os amigos, o clima recolhe 2,81% - menos do que o desporto, com 3,39%, e muito menos do que as séries e os filmes, com 3,7%. Numa pergunta aberta sobre o que provoca mais tristeza, as questões ambientais valem 3,7%, contra 6,6% da guerra e 21% da morte ou perda de familiares.

Anabela Carvalho, professora no departamento de ciências da comunicação da universidade do minho, estuda comunicação e clima e coordenou o projeto Just Futures, financiado pela fundação para a ciência e a tecnologia entre 2021 e 2025. O público publica a sua explicação para o recuo do ativismo climático jovem depois do pico de 2019, e a explicação é quase toda exterior: a covid, a viragem à direita, a criminalização do protesto, a hostilidade dos media. "A maior parte dos grupos de jovens de activismo climático dissipou-se", resume.

Vale a pena olhar para o que esses grupos pediam. A própria entrevistada separa as águas: de um lado o Climáximo, fundado em 2015, e a Greve Climática Estudantil de Lisboa, que persistiu aliada a ele; do outro, o Lidera e o AmbientalIST, no Instituto Superior Técnico, mais inclinados para a tecnologia e para a mudança de comportamento individual. Os primeiros têm, diz, "uma visão transformativa" e apontam para as estruturas económicas e políticas que mantêm a ordem neoliberal. Traduzido: querem que as decisões sobre a economia passem para a política. É preciso pouca imaginação para perceber quem pagaria essa conta, e menos ainda para perceber porque é que quem a pagaria não apareceu na marcha seguinte.

O estudo de três anos sobre a RTP, a SIC e a TVI, citado na conversa, descreve um percurso conhecido. Primeiro, o entusiasmo com as marchas. Depois, quando aparece tinta atirada aos quadros e escolas ocupadas, o tom muda e começam as reportagens a perguntar se os jovens sabem o que pedem. Um movimento que depende da boa nota dos noticiários nunca foi independente; era uma campanha de imagem à espera de perder o cartaz. E isto encaixa num padrão mais largo: o alarmismo climático serve para justificar uma agenda de decrescimento e de controlo sobre a vida das pessoas, enquanto a instabilidade real das famílias é fabricada por impostos, inflação e regulação, ou seja, o alarmismo climático ao serviço da agenda verde.

O retrato mais nítido do sistema está num episódio que a entrevistada recorda: jovens com fita adesiva na boca a exigir a declaração de emergência climática, a voz-off da televisão a garantir que Marcelo Rebelo de Sousa os ouviu, e ele próprio a declarar-se muito empenhado. Ninguém discute o pedido; todos confirmam que ouviram. A investigação empírica que procurou medir o efeito da opinião pública nas decisões tomadas em Washington encontrou uma ligação, na melhor das hipóteses, ténue, com as preferências dos cidadãos comuns a revelar pouco ou nenhum efeito independente, como mostram os estudos sobre a influência real da opinião pública. Nada indica que Lisboa funcione de outra maneira.

A 25 de setembro, em Guimarães, o mesmo circuito volta a reunir-se no Laboratório da Paisagem, sob a chancela de capital verde europeia, para debater o papel das novas gerações. Entrada livre, inscrição obrigatória - a liberdade do cidadão, com marcação prévia.

Uma causa que precisa de decretos, de dinheiro público para ser estudada e de boas notas nos telejornais não perde grande coisa quando os jovens se distraem com outra coisa. Perde tudo quando reparam no que lhes estavam a pedir para pagar. Talvez o recuo não se explique apenas por leis mais duras e por prisões: explica-se também porque a juventude olhou para o programa e não gostou da fatura. O silêncio que se seguiu não foi imposto a ninguém.

Partilha este artigo com:

  • Professores e investigadores de comunicação ou de ciências sociais - O texto reúne dados do projeto Just Futures e do inquérito bYou sobre a queda da preocupação climática entre alunos do 6.º, 9.º e 12.º ano, matéria útil para aulas e trabalhos sobre movimentos sociais.
  • Ativistas e coletivos climáticos - Interessa-lhes entender por que razão dezenas de grupos da Greve Climática Estudantil se dissiparam e como a cobertura televisiva mudou de tom quando as ações passaram a incomodar o poder.
  • Pais, professores e educadores - A peça mostra que o clima desceu na lista de preocupações dos jovens, bem abaixo da saúde e do futuro profissional, o que ajuda a perceber o que realmente lhes ocupa o dia.

  1. 1Ativismo climático (climate activism)Ação organizada para exigir medidas contra as alterações climáticas.

    É o conjunto de pessoas que se junta para pressionar governos e empresas a mudar políticas ligadas ao clima. No artigo, aparece como um movimento que cresceu em 2019 e depois perdeu força. Um exemplo concreto: as marchas pelo clima e as greves estudantis.

  2. 2Greve Climática Estudantil (climate student strike)Grupos de estudantes que faltam às aulas para protestar pelo clima.

    Surgiram em vários países depois de 2018, inspirados pela ativista sueca Greta Thunberg. Em Portugal, o artigo diz que existiam dezenas de pequenos grupos espalhados pelo país. A ideia era usar a ausência às aulas como forma de pressão política.

  3. 3Desobediência civil (civil disobedience)Quebrar uma lei de propósito para chamar atenção para uma causa.

    Não é violência contra pessoas; é uma infração assumida, muitas vezes com aceitação da punição. No artigo, aparece ligada a atos como atirar tinta ou sopa a quadros. A professora nota que essas formas de luta afastaram muitos jovens que não se reviam nelas.

  4. 4Tecno-optimismo (techno-optimism)Confiança de que a tecnologia resolve os problemas sem mudar o sistema.

    É a ideia de que basta inventar melhores máquinas, painéis ou carros para resolver o clima. No artigo, grupos como o Lidera e o AmbientalIST são descritos assim: apostam mais em mudar comportamentos individuais do que em transformar a economia. Um exemplo simples: trocar de lâmpada em vez de questionar quem manda na energia.

  5. 5Criminalização do protesto (criminalization of protest)Usar a lei e a polícia para transformar manifestantes em criminosos.

    Ocorre quando novas leis ou detenções tornam o protesto um risco judicial. No artigo, a investigadora fala de leis alteradas pela Europa e de pessoas presas por atos ligados ao clima. O efeito prático é que muitas pessoas pensam duas vezes antes de participar.

  6. 6Cooptação (co-optation)Absorver uma exigência para a esvaziar de conteúdo.

    Acontece quando o poder finge adotar a causa, mas sem fazer as mudanças pedidas. No artigo, surge no episódio em que Marcelo Rebelo de Sousa diz ouvir os jovens que estavam com a boca tapada. A exigência de emergência climática fica sem resposta, mas o gesto parece suficiente.

  7. 7Agenda-setting (agenda-setting)Definir quais os assuntos de que se fala em público.

    É o poder de decidir o que entra nas notícias e o que fica de fora. No artigo, a investigadora analisou centenas de peças de televisão e concluiu que a cobertura mudou quando os protestos ficaram mais incómodos. O que não é noticiado raramente chega à discussão política.