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OE 2027: partidos pedem impostos e mais despesa
SitePropaganda estatal· Expresso· Liliana Coelho

OE 2027: partidos pedem impostos e mais despesa

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O expresso difunde o arranque das reuniões do governo com os partidos sobre o orçamento do estado para 2027 e embrulha-o num catálogo de promessas alheias: descidas de impostos, reforço do SNS, apoios à habitação, passes de transporte e um imposto sobre os "super ricos". O que fica por explicar é quem paga a festa - o mesmo trabalhador a quem o estado já retira dinheiro todos os meses, sem que a margem "muito limitada" invocada pelo executivo ponha em causa um único euro de despesa nova. Assim contado, o orçamento parece um concurso de generosidade entre partidos que dispõem de dinheiro que nunca foi deles, e o leitor é convidado a escolher o melhor bilhete em vez de perguntar por que razão a cobrança existe.

Fonte de propaganda estatal

Conteúdo difundido por uma fonte financiada, protegida ou condicionada pelo estado, usado para normalizar coerção, burocracia e dependência política.

Naturalização da coerção fiscal - O artigo apresenta o orçamento como gestão técnica de dinheiro que não pertence a quem o ganha, sem nunca perguntar quem tem direito a decidir sobre ele: "O ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, e o ministro dos Assuntos Parlamentares, Carlos Abreu Amorim, estão a apresentar o cenário macroeconómico e as linhas gerais da proposta orçamental do executivo" - o dinheiro aparece desde a primeira linha como propriedade do executivo, e os partidos como candidatos a uma fatia.
Falsa escassez orçamental - A peça transforma uma decisão política numa restrição quase natural, como se o dinheiro retirado aos salários fosse um recurso limitado por aritmética e não por escolha: "o ministro da Presidência António Leitão Amaro alertou que a margem será "muito limitada" para acolher propostas da oposição" e ainda "o executivo terá uma "margem provavelmente de 100 milhões" para medidas" - assim, o debate fica fechado antes de começar e ninguém discute a cobrança em si.
Rotulagem moral do "contribuinte" - Etiquetas como "super ricos" e "fiscalidade mais justa" dão por adquirido que existe uma autoridade legítima para classificar as pessoas e decidir quanto cada uma deve entregar: o Livre "pretende apresentar uma proposta de um imposto sobre os super ricos" e defende uma "fiscalidade mais justa", com descida da carga fiscal para quem trabalha e "quem mais precisa" - a peça reproduz o rótulo sem questionar quem define o limiar nem por que razão a decisão lhe pertence.

Análise Libertária

O orçamento do estado para 2027 ainda não existe, mas já tem encenação. O governo volta esta terça-feira a sentar-se com os partidos - hoje é a vez do livre, pcp, bloco de esquerda, pan e jpp, e na quarta-feira fecha-se a primeira ronda com a iniciativa liberal. Joaquim Miranda Sarmento, ministro das finanças, e Carlos Abreu Amorim, ministro dos assuntos parlamentares, levam para a mesa o cenário macroeconómico: crescimento do PIB de 0,2% no próximo ano e uma inflação média parecida com a de 2026. O expresso apresenta o rol de intenções como se fosse uma ementa de restaurante: todos querem descer impostos, aumentar salários, reforçar o SNS e responder ao custo de vida.

Falta sempre a parte que ninguém quer discutir em voz alta: com que dinheiro. Antes das reuniões, o ministro da presidência, António Leitão Amaro, avisou que a margem será "muito limitada". O chega fala de uma "margem provavelmente de 100 milhões" de euros. Num orçamento de um país, isto não é folga - é dinheiro de bolso. E é com esse dinheiro de bolso que se compram as descidas de impostos que o título promete: frações de ponto percentual, embrulhadas como alívio histórico, com a despesa a continuar a subir por baixo. Ninguém cobra impostos por acaso: recolher recursos de quem trabalha é a função central de qualquer estado, seja pelo rendimento, pelo consumo ou pelas importações, e é isso que está no centro da máquina.

Toda a ronda de reuniões assenta numa pergunta errada. Os partidos discutem quem fica com a chave do cofre, não se o cofre deve continuar fechado a quem lá pôs o dinheiro.

À esquerda, a lista de presentes é comprida. O livre quer um imposto sobre os "super ricos", uma herança social para todos os jovens que atingem a maioridade, um rendimento de coesão, reforço do abono de família - sobretudo para famílias monoparentais - e um passe intermodal único de mobilidade nacional. A bancada de Isabel Mendes Lopes admite desde já que dificilmente acompanhará a proposta do governo, mas aproveita o processo para trazer os debates que, diz, o país tem adiado.

Chamar "herança social" a um pagamento do estado é apropriar-se de uma palavra que não lhe pertence. Uma herança vem de uma família que escolheu uma pessoa concreta para receber o que é seu. O que aqui se propõe é outra coisa: dinheiro retirado à força a uns, entregue a outros por decisão de quem está no governo, com condições anexadas. E quando o alvo é património que nunca passou por uma venda, o resultado é pagar imposto sobre valor que continua apenas no papel, antes de existir dinheiro para o entregar - o mecanismo que transforma uma valorização teórica em dívida real.

O pcp, por seu lado, fala de "favorecimento do grande capital", de "programa de retrocesso" do governo de Luís Montenegro e de "injustiça fiscal". Paula Santos quer valorização efetiva de salários e pensões, mais investimento público, reforço do SNS, da escola pública e da segurança social, rede de creches e habitação pública. O bloco de esquerda atira para o mesmo lado: travar o custo de vida, aumentar salários e pensões, travar a especulação imobiliária, acesso "gratuito" a direitos fundamentais e baixar os preços dos bens essenciais e dos combustíveis que, diz, "sobem sem fim à vista devido à guerra de Trump". Fixar preços por decreto não faz o custo desaparecer - faz desaparecer o produto das prateleiras. Mas o hábito de prometer o que não se produz mantém-se.

Isto não acontece por acaso. Quando o estado ocupa o lugar da família, da igreja, das associações de bairro e do mercado, deixa de haver quem possa resolver problemas sem pedir licença a São Bento. Enfraquecer o poder estatal a sério exige construir essas alternativas não-estatais, para que existam instituições capazes de competir com o estado por algo mais precioso do que o poder.

O pan de Inês de Sousa Real insiste em cinco áreas - saúde, igualdade, sustentabilidade, resiliência ambiental e proteção animal - e volta a pedir a descida do IVA da saúde animal, hoje nos 23%, "passes gratuitos ou tendencialmente gratuitos" para jovens, estudantes, desempregados e famílias de menores rendimentos, mais psicólogos nas escolas e no ensino superior. Gratuito é uma palavra cómoda: alguém pagou o bilhete, e não foi quem o recebeu.

O jpp centra-se na insularidade. Filipe Sousa garante que insistirá no cumprimento da lei que altera o regime do subsídio social de mobilidade no transporte aéreo com as regiões autónomas, para que os beneficiários possam viajar sem adiantar a totalidade do preço do bilhete. "As famílias não devem ter de financiar antecipadamente a parcela que compete ao estado", afirma, defendendo também um estatuto nacional da continuidade territorial e uma ligação regular por ferry entre a Madeira e o continente.

No fim desta primeira ronda, a iniciativa liberal de Mariana Leitão será a última a reunir com o executivo, por razões de agenda. O partido quer uma descida mais acentuada do IRS e do IRC para as empresas e insiste na redução do ISP sobre os combustíveis de 23% para 13%, recomendação aprovada no parlamento a 8 de maio. Ainda não promete o sentido de voto.

Vale a pena guardar uma ideia: nada disto é generosidade. É dinheiro que era dos "contribuintes" - dinheiro que já tinha dono - e que passa a ser distribuído conforme a conveniência de quem governa. Quem acredita que uma descida de impostos de frações de ponto percentual muda a vida das pessoas vai esperar muito tempo. E a fatura, essa, chega sempre.

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  • Um trabalhador por conta de outrem que ainda espera ver o IRS descer - porque as frações de pontos que o governo deixa antever valem pouco por mês, mas a despesa que os partidos querem somar ao orçamento sai do mesmo salário já descontado.
  • Um empresário ou trabalhador independente que atura IRC e ISP - fica a perceber quanto prometem cortar na atividade de quem cria emprego e quanto querem, na mesma proposta, gastar em passes, creches e habitação pública.
  • Quem paga renda ou anda à procura de casa para comprar - as medidas de "travão à especulação" e de promoção de habitação pública dizem-lhe quem decide o acesso, a que preço e com quanta liberdade de escolher onde mora.

  1. 1Orçamento do estado (State Budget)O plano anual que decide quanto o estado cobra e onde gasta.

    É o documento onde o governo fixa os impostos que vai retirar às pessoas e às empresas e a forma como distribui esse dinheiro. No artigo, é o momento em que os partidos tentam meter as suas prioridades no plano do governo. Quem decide é o governo; quem paga são sempre os mesmos.

  2. 2Carga fiscal (Tax burden)O peso total dos impostos que as pessoas e as empresas pagam.

    Inclui tudo o que o estado retira: IRS, IRC, IVA, ISP e outros. Quando o artigo fala de "descida da carga fiscal", fala de aliviar esse peso. Mesmo uma descida pequena é apresentada como grande conquista, mas o dinheiro continua a sair do bolso de quem trabalha.

  3. 3IRS (Personal income tax)O imposto que o estado retira ao rendimento de quem trabalha.

    É cobrado diretamente sobre o salário e descontado antes de o trabalhador o receber. No artigo, vários partidos prometem descer o IRS. O trabalhador não escolhe pagar: o estado retira-lhe o dinheiro à força.

  4. 4IRC (Corporate income tax)O imposto que o estado retira aos lucros das empresas.

    As empresas pagam sobre o que ganham. No artigo, a Iniciativa Liberal quer descer o IRC. Menos imposto às empresas pode significar mais investimento e melhores salários, mas o estado perde receita e tende a ir buscá-la a outro lado.

  5. 5ISP (Fuel tax)O imposto especial que o estado cobra sobre os combustíveis.

    É uma taxa embutida no preço da gasolina e do gasóleo. No artigo, há uma recomendação aprovada no parlamento para descer o ISP de 23% para 13%. O preço que pagas na bomba inclui este imposto, que não escolheste pagar.

  6. 6Imposto sobre os super ricos (Wealth tax)Uma taxa extra sobre quem tem mais património ou rendimento.

    O Livre quer apresentá-la no Orçamento. A ideia é cobrar mais a quem já paga muito. Na prática, é mais uma cobrança obrigatória: o estado decide quanto retira, e quem é visado não tem escolha. E quem tem dinheiro pode mudar-se para outro país, levando o investimento com ele.

  7. 7Herança social (Social inheritance)Uma quantia que o estado promete dar a todos os jovens quando fazem 18 anos.

    O Livre defende esta medida. O dinheiro não nasce do nada: sai dos impostos cobrados a outros. É apresentada como um direito, mas é uma transferência decidida por quem está no poder, não uma escolha de quem o financia.

  8. 8Rendimento de coesão (Cohesion income)Um apoio que o estado promete pagar a quem tem rendimentos baixos.

    O Livre quer criá-lo. É mais uma prestação social financiada por impostos. Quem recebe ganha, mas quem paga não escolheu contribuir: o dinheiro foi-lhe retirado antes de chegar ao bolso.