Voltar ao propaganda.pt
IRS: governo promete 2,4 mil milhões e dá 1 euro por mês
SitePropaganda estatal· Expresso· Pedro Carreira Garcia

IRS: governo promete 2,4 mil milhões e dá 1 euro por mês

Ouvir o podcastEm discussão: IRS: governo promete 2,4 mil milhões e dá 1 euro por mês

Faz download e partilha nas redes

A horas da apresentação do Orçamento do estado para 2027, o expresso serve de megafone ao governo e vende uma "redução do IRS" que, somada desde 2023, dá 2,4 mil milhões de euros a menos cobrados e, no recibo de quem ganha 1058 euros, se traduz num euro por mês. O estado aparece assim como quem devolve, por sua própria iniciativa, dinheiro que primeiro foi retirado à força, e a conversa política fica presa a escalões, deduções e mínimos de existência, detalhes da máquina de cobrança e não da liberdade de quem a financia. Quem trabalha continua sem escolha: o (con)fisco cobra o mesmo, e o alívio que lhe chega é sobretudo de imagem.

Fonte de propaganda estatal

Conteúdo difundido por uma fonte financiada, protegida ou condicionada pelo estado, usado para normalizar coerção, burocracia e dependência política.

Soma acumulada para inflacionar o número - O artigo mostra o governo a juntar descidas de anos diferentes, incluindo uma do PS, para transformar um alívio mensal de cêntimos num valor de milhões: "o governo preferiu fazer as contas somando todas as reduções de IRS desde 2023, incluindo a feita ainda pelo PS em janeiro de 2024, pegando na calculadora para apresentar números mais expressivos".
Consenso fabricado - Apresenta como acordo geral o que os próprios intervenientes desmentem com números na mão, transformando uma disputa partidária numa aspiração de todos: "Consensual entre os partidos foi a necessidade de por mais dinheiro nos bolsos dos portugueses numa altura de aumento do custo de vida".
Linguagem de dádiva - Chama "alívio" e "desoneração" ao simples facto de o estado retirar menos do que já retirava, apresentando como generosidade o que é apenas o efeito da inflação sobre escalões que não foram corrigidos a tempo: "uma redução que serve para neutralizar o efeito da inflação" e "desoneração fiscal de 2,4 mil milhões de euros".

Análise Libertária

Esta quinta-feira à tarde o governo apresenta o orçamento do estado para 2027, e já leva o título pronto: a sexta redução do IRS desde 2023. No mesmo dia em que o anúncio estava marcado, o parlamento fez as contas ao que isso vale na vida de quem trabalha. André Ventura, do chega, resumiu: quem ganha 1058 euros fica com mais um euro por mês. Alfredo Maia, do PCP, falou de pouco mais de euro e meio para salários próximos do salário mínimo, "mas reduz muito mais para quem ganha sete mil". Mário Amorim Lopes, da IL, chamou-lhe um "aliviozinho", boa apenas para "fazer cócegas ao IRS que não resolvem o problema de fundo".

O mecanismo por trás da notícia é sempre o mesmo, e vale a pena desmontá-lo. As pessoas passam a ganhar mais euros por causa da inflação, mas continuam a ser tributadas pelas taxas dos escalões em que estavam antes. O estado arrecada mais sem mexer numa única taxa. Depois, em vez de admitir que ficou com dinheiro que era dos "contribuintes", atualiza escalões, dedução específica e mínimo de existência e vende a correção como benefício. A redução, diz o ministro das finanças, serve para "neutralizar o efeito da inflação". Traduzido: devolve o extra que cobrou a mais. Em termos reais, devolve zero.

Joaquim Miranda Sarmento somou tudo o que foi mexido no imposto desde 2023 - incluindo a descida aprovada ainda pelo partido socialista, em janeiro de 2024 - e chegou a 2,4 mil milhões de euros que deixaram de ser retirados dos rendimentos pelo (con)fisco. Para 2027 promete mexer nos três parâmetros e garante que "estaremos já próximo dos 3 mil milhões de euros do programa eleitoral". Sobre a proposta do livre, que baixa os seis primeiros escalões, foi taxativo: custa cerca do dobro dos 400 milhões de euros da proposta do governo e não há margem orçamental para ela.

Repare-se na linguagem. Um imposto que não chega a ser cobrado passa a ser tratado como um custo para o estado, como se a receita fiscal fosse propriedade natural de quem a não ganhou. É esse o enquadramento que aparece sempre que um imposto é aliviado: o dinheiro que nunca saiu do bolso de quem o ganhou é contabilizado como despesa dos cofres públicos. a conta é apresentada sempre do lado de quem cobra, nunca do lado de quem paga.

E quem cobra é uma organização que vive de rendimentos obtidos por coerção física e que reserva para si a última palavra sobre tudo o que se decide dentro de uma fronteira. Não há aqui contrato nem adesão: há retenção na fonte, feita antes de o salário chegar às mãos de quem o trabalhou. o estado não pede, retira à força.

O mesmo (con)fisco que agora anuncia alívios já mostrou que sabe reescrever a realidade económica de quem lhe paga. Basta-lhe classificar uma sociedade como construção não genuína para transformar rendimentos declarados ao abrigo da lei em rendimentos pessoais e exigir IRS adicional, com juros, mesmo quando o "contribuinte" cumpriu tudo o que a lei manda. Uma liquidação de 1,17 milhões de euros nasce assim, de uma decisão administrativa. a fronteira entre o que é seu e o que é tributável é desenhada por quem cobra.

No parlamento, a discussão nunca chega a esse ponto. O partido socialista reivindica que mais de 40% das descidas de IRS foram aprovadas pelos socialistas, apresentando a autoria da esmola como troféu. Paulo Núncio, do CDS/PP, defende o recorde do executivo - "Nenhum governo desceu tantas vezes o IRS em tão curto espaço de tempo" - e exemplifica com uma família com dois filhos e 2700 euros por mês, que pouparia 1700 euros por ano face a 2023. O PAN avisa que o estado não pode "encher os cofres às custas dos sacrifícios dos portugueses". Todos discutem a fatia; nenhum pergunta porque é que a mesa é do estado.

E os números do alívio anual convivem mal com a matemática mensal. Quem ganha perto do salário mínimo recebe um ou dois euros por mês, enquanto a subida dos combustíveis, dos supermercados e das portagens continua a entrar pela mesma porta. O governo responde que não há margem, o que equivale a dizer que já gastou antes de cobrar.

O ponto essencial não é se a redução é de 2,4 ou de 3 mil milhões de euros até 2029. É que uma descida desenhada apenas para repor o que a inflação tirou não é uma descida: é a manutenção do mesmo saque, ano após ano, com uma justificação nova. Se o dinheiro é de quem o ganhou, a decisão de quanto sobra também devia ser. Enquanto não for, cada orçamento será uma discussão sobre a esmola, e nunca sobre o confisco. O expresso publica a versão oficial com todo o aparato de contas, mas as contas verdadeiras são as de quem chega ao fim do mês.

Partilha este artigo com:

  • Perfil 1 - Um trabalhador por conta de outrem com salário perto do mínimo, para saber o que esta descida do IRS lhe deixa mesmo na conta ao fim do mês.
  • Perfil 2 - Um contabilista que tenha de aplicar em 2027 os escalões, a dedução específica e o mínimo de existência, e que queira perceber o que muda nos recibos que processa.
  • Perfil 3 - Um leitor desconfiado das contas oficiais, para ver como o governo e o expresso transformam uma poupança de um euro por mês numa redução de 2,4 mil milhões de euros.

  1. 1IRS (Personal income tax)Imposto sobre o rendimento das pessoas singulares.

    É o imposto que o estado retira ao que uma pessoa ganha ao longo do ano. No artigo, o governo fala de reduções do IRS, mas o dinheiro continua a ser retirado à força do salário antes de chegar ao trabalhador. Uma redução do imposto significa apenas que o estado fica com uma fatia um pouco menor, não que devolva o que já cobrou.

  2. 2Escalões de IRS (Tax brackets)Faixas de rendimento com taxas diferentes.

    O rendimento é dividido em fatias e cada fatia paga uma percentagem diferente. Quando o governo atualiza os escalões, mexe nos limites dessas fatias. No artigo, essa atualização é apresentada como uma redução de imposto, mas serve sobretudo para compensar a subida dos preços.

  3. 3Dedução específica (Specific deduction)Valor fixo que se abate ao rendimento antes de calcular o imposto.

    Antes de aplicar as taxas, o estado deixa uma parte do rendimento fora da conta. Quanto maior for essa dedução, menos imposto se paga. O governo inclui a sua atualização na lista de medidas que dizem aliviar o IRS.

  4. 4Mínimo de existência (Subsistence minimum)Valor mínimo de rendimento que o estado diz não poder taxar.

    É a parte do rendimento que o estado admite que uma pessoa precisa para viver e que, por isso, não cobra. No artigo, a sua atualização faz parte do pacote que o governo apresenta como redução do IRS. Continua a ser o estado a decidir quanto do teu dinheiro te deixa ficar.

  5. 5Desoneração fiscal (Tax relief)Expressão oficial para uma redução de impostos.

    O governo usa esta palavra para dizer que retira menos dinheiro aos "contribuintes". No artigo, fala-se de uma desoneração acumulada de 2,4 mil milhões de euros desde 2023. É dinheiro que o estado deixou de cobrar, não dinheiro que devolveu.

  6. 6Inflação (Inflation)Subida generalizada dos preços.

    Com o tempo, o mesmo dinheiro compra menos. Se os escalões do IRS não forem atualizados, o estado cobra mais imposto sem ter aumentado as taxas, porque o salário nominal sobe mas vale menos. No artigo, a atualização dos escalões é justificada como forma de neutralizar esse efeito.

  7. 7Carga fiscal (Tax burden)Peso total dos impostos sobre o rendimento e o consumo.

    É a fatia da riqueza de um país que o estado retira à força. Uma redução de um imposto pode ser compensada por subidas noutros ou pelo aumento de receita causado pela inflação. No artigo, o governo soma várias reduções para apresentar um número maior, mas não mostra o total da carga fiscal.