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governo entrega a Bruxelas a resposta à crise
SitePropaganda estatal· Expresso· Liliana Valente, Rita Dinis

governo entrega a Bruxelas a resposta à crise

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O expresso publica uma peça sobre a crise dos combustíveis em que o governo e a presidência da república surgem sem plano próprio: há "margem" para mais apoios, mas ninguém diz quais, quando nem para quem, e a resposta é remetida para o conselho europeu de 15 e 16 de outubro, como se a decisão sobre o dinheiro de quem trabalha em Portugal se tomasse em Bruxelas. Difunde-se assim a ideia de que a solução vem de fora e que os governantes nacionais são pouco mais do que gestores de província à espera de instruções, enquanto quem já paga a factura dos combustíveis fica dependente de uma ajuda desenhada noutro sítio - e paga por ela com o dinheiro que era dos "contribuintes".

Fonte de propaganda estatal

Conteúdo difundido por uma fonte financiada, protegida ou condicionada pelo estado, usado para normalizar coerção, burocracia e dependência política.

Delegação de soberania - O artigo trata a decisão nacional como algo que só faz sentido depois do aval de fora, descrevendo quem governa a "alinhar discursos com um propósito: olhar para Bruxelas", e transformando a espera por instruções europeias em virtude política em vez de abdicação de responsabilidade.
Eufemismo do "apoio" - Dinheiro que sai primeiro do bolso de quem trabalha surge descrito como "apoios" que o estado distribui, por exemplo quando se garante que "os apoios às empresas e famílias não seriam descurados", o que faz passar por generosidade uma cobrança que ninguém escolheu pagar.
Naturalização da intervenção no mercado - O texto apresenta o controlo político dos preços como uma hipótese técnica inofensiva, citando que "Seria benéfico discutir o mecanismo de formação do preço internacional do petróleo", sem admitir que mexer nesse mecanismo significa decidir à força quanto cada um paga pela energia que consome.

Análise Libertária

Esta quarta-feira, o INE apresenta os números da inflação de setembro. Em Espanha, os preços aceleraram 4,9%. Em Portugal, depois dos 3,3% de agosto, espera-se nova subida. A dimensão do surto vai ficar mais clara - e é a partir dela que o governo volta a prometer medidas que ainda não sabe quais são, para quem, nem durante quanto tempo.

Na terça-feira, na reunião do conselho nacional do partido que sustenta o executivo, Luís Montenegro lembrou os apoios já aprovados e admitiu mais. "Não sei dizer, nem sei dizer aos portugueses, se isto vai ser suficiente e por quanto tempo vamos precisar destes apoios. E também não sei dizer se vamos precisar de outros." Há uma honestidade incómoda nesta frase. E há também o essencial: os apoios são pagos com dinheiro que o estado retirou à força precisamente às pessoas que agora o recebem. Aquilo a que se chama apoio é uma parte do que foi cobrado a voltar atrás, depois de o estado já ter ficado com o resto. Não é generosidade, é devolução parcial.

Acontece que a resposta nacional não convence ninguém, e o olhar virou-se para fora. A esperança está no conselho europeu de 15 e 16 de outubro, embora a própria peça reconheça que a resposta europeia demora e não se adapta à realidade portuguesa. Montenegro levou o tema à ONU e falou de "debater e decidir" formas de mitigar a crise energética. Maria da Graça Carvalho foi a Bruxelas dizer que as recomendações do comissário da energia, Dan Jørgensen, não se aplicam a Portugal. António José Seguro, em Estrasburgo, explicou que a questão "ultrapassa o nosso país" e tem "dimensão europeia".

O problema de fundo é outro. Quem governa Portugal foi eleito e é pago - e pago bem - para governar Portugal. Não para ser intendente de Bruxelas à espera de instruções, nem para descobrir em Estrasburgo o que devia saber em São Bento. Quando um primeiro-ministro diz que não sabe se os apoios chegam e se vai precisar de mais, está a admitir que não tem plano. Quando acrescenta que a solução virá de uma reunião lá fora, está a dizer que também não quer tê-lo.

Montenegro foi mais longe na ONU, ao defender que "seria benéfico discutir o mecanismo de formação do preço internacional do petróleo" e ao perguntar se "faz sentido estarmos todos tão dependentes do fator especulativo e da volatilidade dos mercados financeiros". Vale a pena desmontar isto devagar. O preço não nasce numa sala nem num painel de sábios: resulta de milhões de decisões de quem extrai, transporta, refina e compra. "Discutir o mecanismo" é o nome educado que se dá a mexer nos preços por decisão administrativa - e depois admirar-se com a escassez que se criou.

E se o objetivo fosse mesmo baixar o preço na bomba, não era preciso esperar por outubro. O estado cobra ISP, taxa de carbono e IVA sobre cada litro, e a fatura fiscal é uma fatia enorme do que se paga no posto de abastecimento. Chamar gestores ao parlamento para perceber os preços não produz um único litro de gasolina. É teatro com luzes, comissões e uma conclusão escrita de antemão.

Tudo isto num mês em que o gasóleo pode subir vários cêntimos por causa do conflito no Médio Oriente, somando-se aos aumentos já aplicados. A pressão não vem dos mercados por maldade: vem de um mundo onde a oferta e a procura se ajustam todos os dias, e do qual o estado português continua a tentar arrancar mais. Até o teletrabalho entrou na conversa, à moda da pandemia, como forma de reduzir consumos - como se decidir de onde as pessoas trabalham fosse competência de um conselho de ministros.

Dentro de dias discute-se o orçamento do estado. Miranda Sarmento volta a apresentar excedente para 2027 e a gerir com pinças os resultados favoráveis; a oposição, do partido socialista ao chega, exige mais. Uns e outros discutem a melhor forma de distribuir o dinheiro que já foi cobrado. Nenhum pergunta porque é que ele é cobrado assim, nem com que direito.

Discute-se o IVA zero, discute-se quem beneficia, e fica tudo dentro do mesmo pressuposto: que cabe ao estado decidir o preço da comida. Não cabe. O que faria falta era sair do caminho e deixar os preços dizerem a verdade.

Fica a frase final de Montenegro, que resume tudo: "cá estaremos quando for necessário". Estarão. Com o dinheiro de quem trabalha. E, se for preciso decidir alguma coisa a sério, telefonam a Bruxelas.

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  • Um empresário de transportes com frota a gasóleo - se as contas dele dependem do preço à bomba, encontra aqui a lista de quem prefere pedir instruções a Bruxelas em vez de cortar no que o estado cobra sobre cada litro.
  • Um trabalhador por conta de outrem a quem o salário encolhe todos os meses - vê o governo a admitir que não sabe se os apoios chegam, quanto custam nem quem os paga, e percebe que a fatura fica sempre do mesmo lado.
  • Um dirigente local ou candidato em campanha - recolhe os argumentos que o executivo ensaia para justificar que as decisões sobre o país se tomam fora dele, úteis para quem tiver de explicar isto à porta de casa.

  1. 1Inflação (Inflation)Subida generalizada dos preços.

    O dinheiro compra menos do que comprava antes. No artigo, o Instituto Nacional de Estatística vai apresentar os números de setembro e espera-se nova subida depois dos 3,3% de agosto. Em Espanha, os preços aceleraram 4,9%.

  2. 2Excedente orçamental (Budget surplus)O estado arrecadou mais do que gastou.

    Significa que entrou mais dinheiro nos cofres do estado do que saiu. No artigo, o governo volta a prever excedente para 2027 e Miranda Sarmento vai gerir com pinças os resultados favoráveis até ao fim do ano. É dinheiro retirado à força aos "contribuintes", não sobra de uma empresa.

  3. 3Conselho Europeu (European Council)Reunião dos chefes de governo da UE.

    É onde os líderes dos estados-membros se juntam para decidir orientações comuns. No artigo, é aí que o governo e o Presidente depositam a esperança de uma resposta à crise, na reunião de 15 e 16 de outubro. O problema é que a resposta europeia demora e não se adapta à realidade portuguesa.

  4. 4Preço dos combustíveis (Fuel prices)Quanto custa encher o depósito.

    É o que mais pesa na crise portuguesa, segundo a ministra do Ambiente. O artigo diz que a crise em Portugal não está tanto no consumo de eletricidade e gás, mas no preço dos combustíveis. O primeiro-ministro chegou a defender que se discuta o mecanismo de formação do preço internacional do petróleo.

  5. 5Estreito de Ormuz (Strait of Hormuz)Passagem marítima por onde passa muito petróleo.

    É um ponto estreito no Golfo Pérsico por onde passam petroleiros de vários países. No artigo, o bloqueio do estreito é apontado como uma das causas da crise energética. Quando esta passagem fica bloqueada, o petróleo escasseia e os preços sobem em todo o lado.

  6. 6Teletrabalho (Teleworking)Trabalhar a partir de casa.

    Foi usado durante a pandemia para reduzir deslocações. No artigo, o expresso perguntou a vários ministérios se poderia estar em cima da mesa uma recomendação de teletrabalho para reduzir o consumo de combustível, mas não obteve resposta. A ministra do Ambiente disse que teria de ser decidido em conselho de ministros.

  7. 7Orçamento do estado (State Budget)Plano anual de quanto o estado cobra e gasta.

    É o documento onde o governo define impostos e despesas para o ano seguinte. No artigo, está a dez dias de ser entregue e os partidos da oposição saíram das reuniões a dizer que o governo não tem nada para dar aos portugueses. O dinheiro do Orçamento não é do estado: é retirado aos "contribuintes".