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Espero que o ChatGPT também ame os seus filhos
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Espero que o ChatGPT também ame os seus filhos

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O expresso difunde uma crónica que trata o aviso de que a inteligência artificial pode matar-nos como mais um episódio de histeria apocalíptica, e ao trocar o argumento pela caricatura do profeta deixa de fora a pergunta que interessa: quem vai ficar com o poder de decidir quais modelos podem existir. Ao rir do catastrofista em vez de examinar interesses, o jornal normaliza a ideia de que este é um assunto que exige uma autoridade a vigiar, a licenciar e a escolher vencedores - o arranjo que protege quem já está instalado da concorrência de quem ainda não pediu licença. Quem paga essa arrumação é quem trabalha, com mais regras, mais taxas e menos escolha sobre a tecnologia que usa.

Fonte de propaganda estatal

Conteúdo difundido por uma fonte financiada, protegida ou condicionada pelo estado, usado para normalizar coerção, burocracia e dependência política.

Analogia histórica selectiva - Usa a previsão falhada de William Miller para 22 de Outubro de 1844 como prova antecipada de que qualquer aviso novo é falso, sem examinar o mecanismo concreto que está a ser descrito: "Mesmo sabendo que Coxon está a acrescentar um capítulo à história do rapaz que gritou fim do mundo".
Desqualificação do mensageiro por rótulo emocional - Troca a análise do argumento pela etiqueta de desequilíbrio colada a quem avisa, tratando o aviso como número de comédia em vez de alegação a verificar: "é a hipótese de fazer pouco do histérico que o previu".
Falsa equivalência para relativizar o risco - Coloca um risco hipotético ao lado de governantes já instalados, sugerindo que o perigo novo é pequeno só porque existem perigos antigos: "tenho alguma dificuldade em assustar-me com o Claude".

Análise Libertária

Um antigo investigador da Anthropic e da OpenAI, Jacob Coxon, afirma que a inteligência artificial pode matar-nos a todos antes do fim da década. O expresso leva a alegação ao leitor e o cronista responde como um homem livre responde a um profeta: quer continuar vivo em 2030 sobretudo para poder rir-se-lhe da cara. A piada é boa e é merecida. O que fica de pé depois da piada é o enquadramento - e esse enquadramento faz um favor enorme a quem já está sentado dentro do mercado.

Em 22 de Outubro de 1844, o pregador William Miller tinha data marcada. Tinha estudado o Livro de Daniel, tinha concluído que Jesus voltaria nesse dia e que um fogo purificador consumiria o resto. Dezenas de milhares de fiéis deixaram de cuidar das plantações, venderam as suas terras e ofereceram os seus bens. Não aconteceu nada, e o dia ficou conhecido como o Dia da Grande Decepção - decepção, repare-se, por o mundo não ter acabado. Ninguém gosta que lhe estraguem os planos, mesmo quando o plano era ser aniquilado. Entre Miller e os profetas de agora há uma diferença prática: Miller não tinha uma empresa a valorizar com a data que anunciava.

Chamar "risco existencial" a uma tecnologia é um rótulo, não uma medição. Na Idade Média, os anúncios do fim do mundo eram frequentes e o exterminador era o próprio Criador; agora é uma criatura nossa. A diferença teológica é grande e a diferença prática é nenhuma: os dois anúncios pedem a mesma coisa a quem ouve, que entregue o juízo a quem grita mais alto.

E é aí que o negócio aparece. Se a máquina pode acabar connosco, então alguém tem de decidir quem tem autorização para a construir. Esse alguém é o estado, com licenças, pareceres e inspeções - e uma licença faz uma coisa muito bem: protege quem já cá está. As duas empresas por onde Coxon passou seriam precisamente as que enfrentariam menos concorrência e teriam mais poder de negociação num mundo com barreiras à entrada. O programador que trabalha sozinho na garagem fica de fora, não por ser perigoso, mas por não ter departamento jurídico. Paga o custo quem quer construir, e volta a pagá-lo quem só quer usar.

O anúncio em si merece exame. Miller tinha um dia; Coxon tem uma década. Ambos transformam uma possibilidade vaga num prazo, e um prazo tem tudo o que uma probabilidade não tem: uma cara, uma data e um medo que se vende. Uma probabilidade mede-se repetindo a experiência muitas vezes e contando as vezes em que o acontecimento sucede, como sucessivos lançamentos de uma moeda - não se mede pelo crachá de quem fala. E o crachá também não resolve nada: nem o currículo de um investigador torna uma previsão verdadeira, nem a desconfiança de quem duvida a torna falsa. Avaliar o que se afirma não pode depender do lado onde já estamos, porque a ideologia de quem observa não decide o que aconteceu.

Há ainda uma parte do texto que vale a pena guardar. O cronista escreve que, num mundo em que os Estados Unidos são governados por Donald Trump e a Rússia por Vladimir Putin, tem dificuldade em assustar-se com o Claude. Essa dúvida é razoável e não é propaganda ao contrário. Quem passa o dia a ouvir avisos oficiais aprende, com bons motivos, a pedir provas antes de entrar em pânico.

Só que a conclusão não pode ser entregar a máquina a uma comissão que ninguém elegeu - nem aos laboratórios que se apresentam como os únicos adultos na sala. A resposta a um profeta não é um regulador; é a existência de muitos construtores, sem porteiro. Se houver um porteiro, será nomeado precisamente por quem lucra com o medo que ele administra. E se 2030 chegar sem apocalipse, quero ter tempo para me rir não só de Coxon, mas também de quem já tinha o regulamento pronto à espera da desculpa.

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  • Fã do humor de Ricardo Araújo Pereira - Reconhece ali o tom de sempre: o fim do mundo tratado como anedota e a promessa de sobreviver só para poder gozar com o profeta da vez. A ideia de ficar vivo até 2030 para ver a cara de Jacob Coxon é razão suficiente para voltar à crónica.
  • Quem segue o debate sobre inteligência artificial e desconfia do pânico - Encontra aqui a rara ocasião de ver o anúncio do apocalipse tecnológico levado a sério como piada e não como manchete. Para quem suspeita que o medo serve para travar quem chega depois, o texto dá munição com boa disposição.
  • Curioso de profecias e seitas do fim do mundo - O desvio pelo Dia da Grande Decepção de 1844, quando William Miller marcou a data e milhares de fiéis venderam tudo para nada, liga a histeria religiosa de ontem ao alarme tecnológico de hoje. É história contada sem cerimónia e com uma comparação que fica na cabeça.

  1. 1Risco existencial (existential risk)Perigo que pode acabar com a humanidade.

    É uma ameaça tão grande que, se acontecer, não sobra ninguém para contar a história. No artigo, Jacob Coxon diz que a inteligência artificial pode matar-nos a todos até ao fim da década. É a versão moderna do fim do mundo pregado por William Miller em 1844.

  2. 2Inteligência artificial (artificial intelligence)Programas que aprendem e decidem sozinhos.

    São sistemas de computador que executam tarefas que antes exigiam uma pessoa, como escrever, conversar ou tomar decisões. O artigo fala do ChatGPT e do Claude, dois desses programas. A dúvida é se uma máquina assim pode tornar-se uma ameaça para quem a criou.

  3. 3Fim do mundoA ideia de que tudo vai acabar.

    Aparece no artigo em três momentos: a previsão de William Miller para 22 de Outubro de 1844, o receio da passagem para o ano 2000 e o aviso de Jacob Coxon sobre a inteligência artificial. Em todos, alguém anuncia o fim e depois a vida continua. O artigo nota que as pessoas ficam desapontadas quando a profecia falha.

  4. 4Dia da Grande DecepçãoO nome dado ao fracasso da profecia de 1844.

    William Miller concluiu que Jesus voltaria à Terra a 22 de Outubro de 1844 e que o mundo acabaria em fogo. Dezenas de milhares de fiéis venderam terras e deixaram as plantações. Como nada aconteceu, o dia ficou conhecido como o Dia da Grande Decepção.

  5. 5Guerra Fria (Cold War)Confronto entre os Estados Unidos e a União Soviética sem guerra direta.

    Foi um período de tensão em que o mundo viveu com medo de uma guerra nuclear. O artigo lembra que Sting cantou "Espero que os russos também amem os seus filhos", como quem confia que o outro lado também quer proteger a vida. A ideia é que o medo do fim do mundo não é novo.

  6. 6HistéricoQuem espalha alarme sem provas.

    No artigo, é quem anuncia o fim do mundo e depois não acontece nada. Ricardo Araújo Pereira diz que quer estar vivo em 2030 para escarnecer de Jacob Coxon, o investigador que previu a extinção humana pela inteligência artificial. O prazer de sobreviver ao apocalipse é poder rir de quem o previu.

  7. 7Incumbentes (incumbents)Quem já está instalado no mercado ou no poder.

    São as empresas ou pessoas que já dominam uma área e têm interesse em travar quem chega de novo. Quando um incumbente avisa que a sua própria tecnologia vai destruir o mundo, há motivo para desconfiar: o alarme pode servir para pedir regras que afastem concorrentes. O artigo não usa a palavra, mas o mecanismo está lá.

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