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Qual É o Papel da Probabilidade em Economia?
Site· Mises Portugal· Frank Shostak, Instituto Mises Portugal

Qual É o Papel da Probabilidade em Economia?

Análise Libertária

A probabilidade de um acontecimento é a proporção de vezes em que esse acontecimento ocorre num grande número de ensaios. Por exemplo, a probabilidade de sair cara quando se lança uma moeda é 0,5. Isto não significa que, quando uma moeda é lançada 10 vezes, se obtenham sempre cinco caras. Significa, porém, que, se a experiência for repetida um grande número de vezes, então é provável que se obtenha 50 por cento de caras. Quanto maior for o número de lançamentos, tanto mais próxima tenderá a ser a aproximação.

Alternativamente, suponha-se que foi estabelecido que, numa determinada área, a probabilidade de casas de madeira arderem é de 0,01. Isto significa que, com base na experiência, em média, um por cento das casas de madeira arderá. Isto não significa que, neste ano ou no seguinte, a percentagem de casas que ardem seja exactamente de um por cento. A percentagem pode ser de um por cento ou não em cada ano. Contudo, ao longo do tempo, a média dessas percentagens tenderá a ser de 1 por cento.

Esta informação, por sua vez, pode ser convertida no custo dos danos causados pelo fogo, estabelecendo assim o fundamento para o seguro contra o risco de incêndio. Os proprietários de casas de madeira podem decidir repartir o risco através da criação de um fundo. Cada proprietário de uma casa de madeira contribuirá com uma determinada proporção para o montante total de dinheiro necessário para cobrir os prejuízos daqueles proprietários cujas casas sejam danificadas pelo fogo. Note-se que o seguro contra o risco de incêndio só pode existir porque conhecemos a sua distribuição de probabilidades e porque há proprietários de casas de madeira em número suficiente para repartir entre si o custo dos danos causados pelo fogo, de modo a que o prémio não seja proibitivo.

Nos seus escritos, Ludwig von Mises designou este tipo de probabilidade por probabilidade de classe. Segundo Mises, probabilidade de classe significa: sabemos ou presumimos saber, relativamente ao problema em causa, tudo acerca do comportamento de uma classe inteira de acontecimentos ou fenómenos; mas, quanto aos acontecimentos ou fenómenos singulares concretos, nada sabemos senão que são elementos dessa classe. Assim, os proprietários de casas de madeira são todos membros de um determinado grupo ou classe que pode ser afectado de forma semelhante por um incêndio. Sabemos que, em média, é provável que um por cento dos membros desse grupo seja afectado pelo fogo. Não sabemos, contudo, exactamente quem será afectado nem quando isso ocorrerá. O aspecto importante para o seguro é que os membros de um grupo devem ser homogéneos no que diz respeito a um determinado acontecimento.

Na economia, não lidamos com casos homogéneos. Cada observação é um acontecimento único e não repetível, que não é membro de nenhuma classe - é uma classe em si mesma. Consequentemente, não pode ser estabelecida qualquer distribuição de probabilidades. Mais uma vez, a distribuição de probabilidades assenta no pressuposto de que estamos a lidar com um acontecimento particular e repetível. Tomemos, por exemplo, as actividades empresariais. Se estas actividades fossem repetíveis, com distribuições de probabilidade conhecidas, então não precisaríamos de empresários. Afinal, o empresário é o indivíduo que orienta as suas actividades para descobrir as futuras preferências dos consumidores. Ora, os indivíduos prosseguem conscientemente diversos fins. Esses fins nunca permanecem os mesmos. Assim, um determinado bem que hoje ocupa uma posição elevada na hierarquia de preferências dos consumidores pode cair em desgraça no futuro. Deste modo, as necessidades dos indivíduos nunca são constantes relativamente a um determinado bem.

Visto que as actividades empresariais não são homogéneas, isto significa que não pode ser formada uma distribuição de probabilidades para os retornos empresariais. Por exemplo, no primeiro ano, uma actividade empresarial gerou um retorno de 10 por cento sobre o investimento. No segundo ano, outra actividade empresarial produziu um retorno de 15 por cento. No terceiro ano, uma terceira actividade empresarial assegurou um retorno de 1 por cento. E, no quarto ano, uma quarta actividade empresarial gerou um retorno de 2 por cento - a média destes retornos é de 7 por cento. De modo algum, porém, isto implica que possamos estabelecer uma distribuição de probabilidades dos retornos, da mesma forma que o fazemos para o risco de incêndio ou para a obtenção de caras no lançamento de uma moeda. Os retornos nos diversos anos são o resultado de actividades empresariais específicas. Essas actividades não são homogéneas nem repetíveis e não podem ser encaradas como membros da mesma classe. O lucro surge quando um empresário descobre que os preços de certos factores estão subavaliados relativamente ao valor potencial dos produtos que esses factores, uma vez empregues, poderiam produzir. Ao reconhecer essa discrepância e ao agir em conformidade, o empresário elimina a discrepância (isto é, elimina o potencial para um lucro adicional).

O reconhecimento da existência de lucros potenciais significa que um empresário possui um conhecimento particular e subjectivo que outros indivíduos não possuem. A posse desse conhecimento único significa que os lucros não são o resultado de acontecimentos aleatórios. Mises designou este caso por probabilidade de caso, que definiu do seguinte modo: probabilidade de caso significa: sabemos, relativamente a um acontecimento particular, alguns dos factores que determinam o seu desfecho; mas existem outros factores determinantes acerca dos quais nada sabemos. Mises sustentava que a probabilidade de caso não é susceptível de qualquer tipo de valoração numérica. A acção humana não pode ser analisada da mesma forma que se analisam objectos para os quais a probabilidade de classe é relevante.

Para compreender os dados económicos, é necessário escrutiná-los não por meio de métodos estatísticos, mas procurando apreender e compreender a forma como eles surgiram. O pressuposto, feito pela economia dominante, de que a probabilidade é válida na economia conduz a resultados absurdos. Pois descreve não um mundo de seres humanos que exercem a sua mente ao fazer escolhas, mas máquinas mecanicistas, que não escolhem nem actuam. A utilização de probabilidades na análise económica implica que os diversos dados económicos foram gerados por um processo aleatório semelhante ao lançamento de uma moeda. Aleatório significa arbitrário (isto é, sem método ou decisão consciente). Contudo, se assim fosse, os seres humanos não conseguiriam sobreviver por muito tempo. Os seres humanos têm de actuar de forma consciente e intencional; têm de planear as suas acções e empregar meios adequados.

Ora, se a probabilidade numérica não pode ser estabelecida objectivamente na economia, que dizer da probabilidade subjectiva? No momento em que se avança para atribuições subjectivas de números, pode dizer-se qualquer coisa. Pode afirmar-se que, com base em sentimentos pessoais, existe uma elevada probabilidade de uma recessão dentro de alguns meses. Ou, em alternativa, pode dizer-se que se sente que o mercado bolsista terá de corrigir muito em breve. Esta forma de enunciar as coisas deriva da experiência pessoal ou de algum conhecimento que um indivíduo possui. Isto faz parte da probabilidade de caso (isto é, sabemos, relativamente a um acontecimento particular, certas coisas, mas existem outros factores determinantes acerca dos quais nada sabemos). Por exemplo, sabemos que um aumento da oferta monetária exercerá, no futuro, uma pressão ascendente desigual sobre os preços dos bens. Contudo, não podemos ter a certeza de que os preços aumentarão, uma vez que podem existir outros factores compensatórios acerca dos quais nada sabemos. Não será de grande utilidade atribuir aqui probabilidades numéricas de forma arbitrária.

Contrariamente ao que é geralmente pensado, a probabilidade numérica não é aplicável à economia. A probabilidade numérica é relevante no mundo dos objectos, onde se observam casos homogéneos. Na economia, não lidamos com casos homogéneos. Cada observação é um acontecimento único e não repetível, causado por uma acção particular dos indivíduos. Consequentemente, não pode ser estabelecida qualquer distribuição de probabilidades. A acção humana não pode ser analisada da mesma forma que se analisam objectos. Para compreender dados históricos, é necessário escrutiná-los não por meio de métodos estatísticos, mas procurando apreender e compreender a sua verdadeira natureza. O pressuposto, feito pela economia dominante, de que existe uma distribuição de probabilidades quantificável descreve, não um mundo de seres humanos que exercem a sua mente ao fazer escolhas, mas sim máquinas.

Partilha este artigo com:

  • Estudantes de economia que desconhecem a distinção austríaca entre probabilidade de classe e probabilidade de caso - a abordagem estatística convencional oculta a natureza única da ação humana.
  • Empresários e investidores fatigados de modelos preditivos que falham - compreender por que o lucro depende de conhecimento subjetivo e não de cálculos estatísticos traz clareza.
  • Técnicos de bancos centrais e reguladores que aplicam métodos quantitativos à economia - reconhecer os limites da probabilidade numérica pode evitar políticas desastrosas baseadas em pressupostos falsos.

Cientismo - O estado e a ortodoxia económica utilizam modelos matemáticos complexos e terminologia estatística para disfarçar a incerteza inerente à ação humana como se fosse um risco calculável, conferindo uma falsa aura de rigor científico a políticas de intervenção que são, na realidade, arbitrárias e destruidoras do cálculo económico.
Falsa Analogia - A classe política e os meios de comunicação comparam a economia, composta por eventos únicos e irrepetíveis (probabilidade de caso), com jogos de azar ou fenómenos físicos homogéneos (probabilidade de classe), para justificar o planeamento central e a manipulação monetária sob o pretexto de que o futuro é previsível e gerível como uma corretora de seguros.
Reduccionismo Mecanicista - O discurso oficial trata os indivíduos como meras peças de uma máquina que reagem mecanicamente a estímulos, ignorando a capacidade de escolha consciente e a subjetividade dos fins humanos, o que permite ao estado racionalizar a regulação e o controlo social como se estivesse apenas a "afinar" um sistema técnico e não a coagir pessoas.

  1. 1Probabilidade de ClasseProbabilidade para eventos repetíveis e homogéneos, como lançar moedas.

    É o tipo de probabilidade que se aplica a objetos, não a pessoas. Funciona para coisas como seguros de incêndio, onde temos milhares de casas semelhantes. No artigo, Mises explica que esta probabilidade exige membros de um grupo homogéneo. Não serve para economia porque cada situação económica é única.

  2. 2Probabilidade de CasoProbabilidade para eventos únicos, sem números exactos possível.

    É o tipo de probabilidade que realmente existe em economia e nos negócios. Sabemos alguns factores, mas nunca todos. Mises diz que esta probabilidade não pode ser expressa em números. O empresário usa este tipo de conhecimento para antecipar o futuro, mas não há forma matemática de o traduzir.

  3. 3EmpresárioQuem descobre preferências futuras dos consumidores e actua primeiro.

    Na visão austríaca, o empresário não é um gestor de riscos calculáveis. É quem tem conhecimento único que outros não têm. O artigo mostra que se houvesse probabilidades conhecidas, não precisávamos de empresários. O lucro Surge quando ele percebe que certos factores estão subavaliados antes dos outros.

  4. 4Acção HumanaComportamento intencional das pessoas, não aleatório nem mecânico.

    As pessoas agem com propósito, escolhem meios para atingir fins. Não são máquinas que respondem a estímulos de forma previsível. O artigo critica a economia dominante por tratar as pessoas como se fossem objectos com comportamento aleatório. Se fosse assim, a humanidade já teria desaparecido.

  5. 5LucroRecompensa por descobrir discrepâncias de preços antes dos outros.

    Não é fruto do acaso nem de sorte. Resulta de conhecimento específico que um indivíduo possui e outros não. O empresário vê que certos factores estão mais baratos do que o valor do que podem produzir. Ao agir, elimina essa diferença e fica com o lucro. É descoberta, não jogo de azar.

  6. 6Oferta MonetáriaQuantidade de dinheiro em circulação, criada pelos bancos centrais.

    Quando aumenta, pressiona os preços para cima de forma desigual. O artigo menciona que sabemos isto, mas não podemos prever exactamente quando nem quanto. Há outros factores em jogo. A inflação resulta sempre da expansão monetária, nunca de aumentos de preços isolados.

  7. 7Conhecimento SubjetivoInformação pessoal e dispersa que cada pessoa possui individualmente.

    Cada indivíduo sabe coisas que outros não sabem. Este conhecimento não pode ser centralizado nem transformado em números. É o que permite o lucro empresarial. O artigo enfatiza que este conhecimento é particular e não pode ser tratado como dado estatístico.

  8. 8Economia DominanteA corrente económica que usa matemática e estatística para tudo.

    Trata as pessoas como se fossem objectos com comportamento previsível. Assume que existe uma distribuição de probabilidades nos dados económicos. O artigo critica isto como absurdo. Descreve máquinas, não seres humanos que escolhem e actuam com propósito.

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