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Dívida dos EUA: inflação paga o cartão de crédito

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A dívida dos EUA já não se paga com impostos, paga-se com inflação - o próprio presidente dos EUA disse à revista Time que certos níveis de inflação pagam essa dívida muito depressa. Em Portugal e no resto da união europeia a conta chega pela mesma via, cada vez que se paga a conta do supermercado, o gasóleo ou a renda - e os ecrãs que repetem que a inflação está controlada continuam a ser dos artigos mais baratos à venda.

Análise Libertária

Donald Trump disse à Time que certos níveis de inflação também pagariam a dívida dos Estados Unidos muito rapidamente. Vale a pena parar nesta frase. Não há ali nenhum plano para produzir mais, exportar melhor ou cobrar mais impostos. Há um plano para encolher o número. Se a dívida é enorme, faz-se o dinheiro pequeno - e quem tem dinheiro guardado fica com menos, sem que ninguém lhe peça licença. O mundo deve 365 biliões de dólares, a fatia americana ronda os 40 biliões e cresce cerca de 82 000 dólares por segundo. Só os juros custam mais de um bilião de dólares por ano.

O truque é velho: criar mais moeda. O que isso faz à conta poupança e ao recibo do salário é sempre o mesmo. E quem empresta ao estado apercebeu-se. O mercado de obrigações, onde os governos vão pedir dinheiro emprestado, olhou para isto e respondeu como quem percebe que entrou num esquema em pirâmide: se me vais pagar em moeda desvalorizada, paga-me mais. Foi por isso que a taxa a 10 anos dos Estados Unidos chegou ao valor mais alto desde 2002, a taxa a 30 anos do Reino Unido passou os 6% pela primeira vez desde 1998 e o Japão registou o valor mais elevado de sempre. Entretanto, o mercado imobiliário americano abrandou para níveis que não se viam desde 1995.

Em setembro, Scott Bessent, secretário do tesouro, tentou mandar no preço em vez de o aceitar. Desafiou o mercado a apostar contra ele e garantiu que compraria toda a dívida que lhe vendessem. Começou a comprar 2 mil milhões de dólares, depois 4, depois 6. O mercado ouviu e vendeu. Não é maldade: quando se fala de obrigações, fala-se em biliões. Bessent acabou a admitir que não pode fixar o preço de equilíbrio. Nenhum funcionário pode. Os preços formam-se na troca entre pessoas que arriscam o que é seu, não por decreto de quem gasta o que não é.

E isto não é só uma história de quem tem títulos na carteira. A taxa média do crédito à habitação está nos 7,3% e as empresas contratam muito menos. Pagar dinheiro emprestado ficou mais caro para todos. Tirando as empresas de inteligência artificial, o mercado de ações caiu mais de 5% em pouco mais de um mês. A fatura chega a quem nunca comprou uma obrigação, e em Portugal chega da mesma maneira: cada vez que se paga a conta do supermercado, paga-se a moeda que foi diluída. Curiosamente, há uma coisa que continua barata - os televisores, que não pagam impostos especiais e andam por aí a espalhar propaganda quase de graça.

A inflação corrói a poupança de quem adiou consumo e recompensa quem se alavancou. Os juros extraem trabalho futuro. É este o ciclo - inflação, juros e dependência - e basta ver quem está do outro lado. Menos de 2% da dívida pública americana está em mãos chinesas. Cerca de três quartos ficam dentro dos Estados Unidos: fundos de pensões, bancos, a segurança social. Ninguém pode cancelar isto com um passe de mágica, porque os lesados seríamos nós. E nem todos por igual: os 10% mais ricos têm 67% da riqueza do país, e a metade de baixo tem 2,6%. Os juros saem dos impostos de todos e vão para quem tem mais obrigações.

Daí a espiral. Mais de 8 biliões de dólares de dívida vencem no próximo ano e têm de ser pedidos outra vez. A dívida antiga paga abaixo de 4%; a nova custa cerca de 5%. Segundo Luke Groman, quando tudo rolar, a conta dos juros chega a 2 biliões por ano - cerca de 40 cêntimos de cada dólar que o estado recolhe em impostos. Subir juros não resolve isto. A inflação é sempre expansão monetária, e a expansão já foi feita; nenhuma subida de 25 pontos base abre um estreito bloqueado nem produz um barril de petróleo.

Já houve precedente. Depois da Segunda Guerra Mundial, a dívida americana valia 106% da economia; em 1974 era 23%. Boa parte do milagre foi um teto de 2,5% nos juros, enquanto a inflação chegou aos 19%: quem comprou títulos de guerra foi pago em dólares muito mais baratos. Em 2020 as taxas estavam em 0% e a inflação foi aos 9%, e a dívida encolheu outra vez. Desta vez havia uma pandemia para explicar tudo, o que deu jeito.

A China mostra o outro caminho. Financia-se a 10 anos a 1,7%, contra mais de 5% dos Estados Unidos, e desde 2005 quadruplicou a produção de eletricidade enquanto a americana ficou praticamente parada - um sinal mais honesto do que qualquer número de PIB, porque uma central elétrica não se falsifica com facilidade. Quando o seu maior construtor, a Evergrande, rebentou, o estado chinês deixou-o cair e aceitou que os preços das casas descessem. Nos Estados Unidos é ao contrário: os preços dos ativos são salvos, e quando algo tem de ceder, quem cede é o dólar. Quem perde são os poupadores e os detentores de obrigações. Quem ganha já tinha os ativos antes.

A dívida não se cancela, porque do outro lado estamos nós, e não se paga, porque exigiria que alguém vivesse com menos durante anos. Sobra a inflação, o imposto de que ninguém recebe recibo. Em Washington chamam-lhe plano. Quem faz compras em Lisboa paga-o na mesma, todos os dias. E quem apresenta a dívida como solução técnica não vive só ali: a mesma lógica de dívida comum europeia vai empurrando para os eleitores de amanhã a conta do que se gasta hoje.

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  • Aforrador com dinheiro parado em depósitos a prazo ou certificados de poupança - Vai perceber em linguagem simples porque é que o saldo do banco compra cada vez menos e porque é que ninguém lhe pediu licença para isso.
  • Jovem casal com crédito habitação a taxa variável - Explica de onde vem a subida das prestações, quem se está a financiar à custa de quem e porque é que a taxa de juro não se resolve com discursos.
  • Investidor com fundo de pensões ou pequeno empresário - Mostra porque é que os títulos de dívida pública acabam por sair do bolso de quem trabalha, mesmo de quem nunca comprou uma obrigação na vida.

A inflação como forma de pagar a dívida - Trump disse à Time que certos níveis de inflação pagariam a dívida muito rapidamente, e a fonte explica o que isso quer dizer: criar mais dinheiro encolhe o número grande da dívida e, ao mesmo tempo, encolhe a poupança e o salário de quem não decidiu nada, ou seja, tira-se valor a quem poupou sem lhe pedir licença.
O mercado de obrigações não aceita ser pago em moeda desvalorizada - quem empresta ao estado percebe que lhe querem devolver menos poder de compra e exige juros mais altos, e por isso a taxa a 10 anos dos EUA chegou ao nível mais alto desde 2002, a 30 anos do Reino Unido passou os 6% pela primeira vez desde 1998 e a do Japão atingiu o máximo de sempre; quando o secretário do tesouro, Scott Bessent, desafiou o mercado a apostar contra ele, dizendo que era "a casa", os investidores venderam, o estado subiu as compras de 2 para 4 e depois para 6 mil milhões de dólares e ele acabou a admitir que não fixa o preço de equilíbrio, porque nenhum governo decide o preço que outros aceitam pagar.
Quem detém a dívida e quem paga os juros - cerca de três quartos da dívida do governo dos EUA está dentro do próprio país, em planos de poupança, fundos de pensões, bancos e segurança social, e o juro sai dos impostos de todos para os detentores das obrigações, num país onde os 10% mais ricos têm 67% da riqueza e a metade de baixo tem 2,6%, o que mostra como a cobrança obrigatória move dinheiro de muitos para poucos.

  1. 1Espiral da dívida (debt spiral)Pedir emprestado para pagar o que já se deve.

    O estado gasta mais do que recebe, por isso pede dinheiro emprestado. Parte desse dinheiro novo serve logo para pagar os juros da dívida antiga. O buraco cresce e obriga a pedir ainda mais. É como usar um cartão de crédito para pagar a fatura de outro cartão.

  2. 2Mercado obrigacionista (bond market)Onde se empresta dinheiro aos estados e às empresas.

    Quem compra uma obrigação do tesouro está a emprestar dinheiro ao estado em troca de juros. Se os credores desconfiam, exigem juros mais altos ou deixam de comprar. No artigo, é este mercado que está a vender dívida americana e a fazer subir as taxas. Sem compradores, o estado tem de pagar mais para se financiar.

  3. 3Taxa de juro (interest rate)O preço de pedir dinheiro emprestado.

    É a percentagem que o credor cobra por emprestar. Quando sobe, tudo o que depende de crédito fica mais caro: casas, carros, empresas. No artigo, a taxa a 10 anos dos Estados Unidos chegou ao valor mais alto desde 2002. Isso trava a economia e aperta quem tem crédito à habitação.

  4. 4Inflação (inflation)O dinheiro perde poder de compra.

    Com o mesmo dinheiro compras menos do que antes. O artigo mostra que o governo americano admite usar a inflação para encolher o valor real da dívida. O truque: a dívida fica com o mesmo número, mas cada euro ou dólar vale menos. Quem paga são as poupanças e os salários de quem não tem como se proteger.

  5. 5Criação de moeda (money creation)Fabricar dinheiro novo do nada.

    Quando um banco central cria moeda, entra mais dinheiro em circulação sem que nada de produtivo tenha sido feito. Historicamente é assim que os governos reduzem o peso real das dívidas. O efeito colateral é a subida de preços. No artigo, é apresentada como a saída que o poder já assumiu.

  6. 6Resgate de ativos (asset bailout)Salvar os preços de casas e ações com dinheiro criado.

    Quando os preços caem, o estado intervém para os segurar, em vez de deixar o mercado corrigir. Nos Estados Unidos, o dinheiro criado vai para casas e ações, o que faz subir os preços e alimenta a inflação. Na China, segundo o artigo, acontece o contrário: deixam os ativos cair e os especuladores perdem.

  7. 7Fulcro (fulcrum)O ponto de apoio de todo o sistema.

    Numa gangorra, o fulcro é o ponto onde tudo se equilibra. No sistema financeiro, esse ponto é o mercado da dívida pública americana: dele dependem hipotecas, ações e empréstimos. O artigo cita um operador que avisa que ninguém deve mexer nesse ponto. Quando se mexe, o risco é o sistema inteiro desabar.

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