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expresso normaliza o (con)fisco com novo chefe dos publicanos
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expresso normaliza o (con)fisco com novo chefe dos publicanos

Análise Libertária

O Expresso apresentou a eventual nomeação de Nuno Santos Félix para diretor-geral da Autoridade Tributária como a escolha de um quadro de elevado perfil técnico e político. No entanto, para Luís Gomes, a notícia adota uma visão excessivamente elogiosa e acrítica sobre um cargo que concentra vastos poderes fiscais e de acesso à informação dos "contribuintes". Através de referências bíblicas, e invocando os "publicanos", este Economistas do Diabo questiona a normalização do reforço da autonomia da máquina tributária - e a forma como os media enquadram os seus protagonistas. O Expresso deu-nos, esta semana, uma daquelas notícias que nos enchem a alma de esperança. Nuno Santos Félix, antigo secretário de estado do governo de António Costa, está na corrida para diretor-geral da Autoridade Tributária. O homem, segundo o mesmo Expresso, "alia competência técnica e política" e "é descrito na casa como tendo um dos melhores perfis para o lugar." Ironia das ironias: em tempos passados, foi "defensor do contribuinte". Sim, leu bem. O potencial novo chefe supremo do aparelho de confisco estatal começou a carreira a defender os assaltados pelo estado. O homem não tem defeitos. É quase comovente. Mas antes de nos rendermos à admiração, convirá convocar uma fonte mais antiga e mais sábia do que qualquer jornalista do Expresso. A Bíblia, esse tratado milenar que poucos leem e ainda menos seguem, tem muito a dizer sobre cobradores de impostos. E o que diz não é animador para os que aspiram ao cargo. No Novo Testamento, a expressão "publicanos e pecadores" aparece múltiplas vezes. Não é uma coincidência. Os publicanos eram os cobradores de impostos do Império Romano, e a sua reputação era tão má que os judeus os colocavam na mesma frase que os pecadores e os gentios. Em Mateus 18, 17, Jesus usa mesmo o publicano como arquétipo máximo do excluído: "Se também não ouvir a Igreja, seja para ti como um gentio e um publicano." Pior impossível. Dois mil anos depois, a AT continua a trabalhar para justificar a comparação. Os fariseus - que eram a versão judaica dos nossos jornalistas de referência, sempre prontos a defender o poder estabelecido e a tomar notas diligentemente nos gabinetes certos - ficaram escandalizados quando Jesus se sentou à mesa com publicanos. "Por que razão o vosso mestre come com os publicanos e pecadores?", perguntaram em Mateus 9, 11. Jesus respondeu-lhes: "Não são os sãos que têm necessidade de médico, mas sim os doentes." O Expresso, se existisse na altura, teria provavelmente lançado encómios ao perfil de Levi, destacando que "aliava competência técnica e política" e que era "descrito na casa como tendo um dos melhores perfis para o lugar." Nuno Santos Félix tem uma biografia que é, em si mesma, uma síntese da natureza do estado português. Militou desde cedo na JSD, chegou a ser dirigente regional do PSD, mas seria o PS a puxá-lo - primeiro para os gabinetes técnicos, depois para o governo. Um verdadeiro camaleão do Bloco Central, essa aliança tácita dos dois partidos socialistas que, há mais de cinquenta anos, gerem em regime de rotatividade o pote do saque à população. Estava na Embaixada de São Tomé quando foi convidado a trabalhar em Lisboa como assessor no gabinete de Fernando Rocha Andrade, secretário de estado dos Assuntos Fiscais do PS. De assessor passou a chefe de gabinete, de chefe de gabinete passou para a representação portuguesa em Bruxelas, e em 2019 entrou na AT como subdiretor-geral para a área da relação com o "contribuinte". Aparentemente, nada fez mais na vida do que ser um recetor líquido de dinheiro dos impostos, transitando de embaixada em gabinete em representação em subdireção com a elegância de quem nunca precisou de criar riqueza, apenas de redistribuir a que outros criaram. Agora está na Embaixada de Cabo Verde como chefe de missão adjunto - "desde Maio de 2024 na Embaixada de Cabo Verde", informa o Expresso - mas não seria a primeira vez que teria de trocar a "tropicalidade africana" por Lisboa. A questão que se coloca é se Lisboa merece essa troca. Ou se Cabo Verde merece a paz que ficará depois da sua eventual partida. A história mais conhecida da Bíblia sobre cobradores de impostos é, naturalmente, a de Zaqueu. Lucas 19, 1-10: "Havia aí um homem chamado Zaqueu, que era chefe dos publicanos e rico." Chefe dos publicanos. Rico. A formulação bíblica é lapidar - não precisa de mais nenhum adjetivo. Zaqueu era de pequena estatura - ser tal coisa era o ápice do desprezível - e subiu a uma figueira-brava para ver Jesus passar. Hoje, o equivalente seria talvez dar uma entrevista ao Expresso, que fornece a figueira-brava necessária a qualquer candidato ao poder que queira ser visto pela multidão certa. Jesus viu-o e disse-lhe: "Zaqueu, desce depressa, porque hoje tenho de ficar em tua casa." O povo murmurou: "Foi hospedar-se em casa de um pecador." Dois mil anos depois, o povo continua a murmurar. O Expresso continua a escrever panegíricos dos que sobem às figueiras. A diferença é que o Zaqueu bíblico, envergonhado, prometeu: "Dou metade dos meus bens aos pobres e, se extorqui alguma coisa a alguém, restituo-lha em quádruplo." O moderno aspirante a chefe dos publicanos não parece ter planos semelhantes. Pelo contrário. O Expresso, com a sua habitual capacidade para a metáfora involuntariamente cómica, informa-nos que o Fisco pretende conferir "um rosto mais humano à cobrança de impostos." É uma formulação que nos ilumina sobre o estado atual das coisas: a instituição reconhece implicitamente que o rosto que tem é inumano, e aspira a melhorá-lo com a nomeação de um diretor mais apresentável. Os jornalistas do Expresso ficaram visivelmente fascinados pela magnitude da coisa: a AT "gere a maior base de dados com informações financeiras e patrimoniais de cidadãos", "acompanha algumas das maiores investigações de criminalidade económico-financeira no país" e dela "emanam decisões e pareceres técnicos que fazem movimentar muitos milhões." Concluem, com uma candura desarmante: "Não é raro ouvir-se dizer que um diretor-geral dos impostos é mais importante que muitos ministros." Assumem. Sem pestanejar. Entretanto, o setor privado, se quiser saber o nome de um cliente ou guardar um endereço eletrónico durante mais de trinta dias, tem de contratar advogados especializados em RGPD, preencher formulários de impacto sobre proteção de dados e rezar para que a CNPD não apareça de surpresa. O estado, esse, fica com tudo. O Expresso acha isso fascinante. João Batista, quando os publicanos lhe perguntaram o que deviam fazer para se redimir, foi direto: "Não exijais mais do que o fixado" (Lucas 3, 13). Conselho simples, atemporal, completamente ignorado. Nuno Santos Félix tem, segundo o Expresso, uma posição diferente: considera que os funcionários do Fisco "não tinham de ficar à espera de ordens ou despachos internos para consultarem dados de "contribuintes" em investigação". Defende que a AT deveria ter autonomia financeira e administrativa, "em vez de estar totalmente dependente do ministro das Finanças." Traduzido do eufemismo para o português: o homem quer rédea solta. Quer um Fisco que não espere por ninguém, que consulte o que quiser de quem quiser, e que não tenha de prestar contas ao poder político eleito - que já por si presta poucas contas a alguém. Na parábola do fariseu e do publicano (Lucas 18, 9-14), o publicano pelo menos tinha a decência de se manter à distância, bater no peito e dizer: "Ó Deus, tem misericórdia de mim, que sou pecador." Era o único do par que saía justificado. O novo modelo, ao que parece, dispensa a autoflagelação e prefere a autonomia total. Em Mateus 21, 31, Jesus disse aos fariseus que "os publicanos e as prostitutas entram antes de vós no Reino de Deus." Era um elogio relativo - os fariseus eram piores. Mas hoje até isso seria generoso demais. Zaqueu, pelo menos, subiu à árvore para ver Jesus. O novo chefe dos publicanos sobe à árvore para ser visto pelo Expresso. É uma diferença teológica e prática de alguma importância.

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  • O contribuinte cansado de ser tratado como fonte de receita - vai perceber que a máquina fiscal não tem rosto humano, apenas poder de confisco
  • O jornalista que ainda acredita no jornalismo independente - vai ver como o Expresso normaliza o aparelho de estado em vez de o escrutinar
  • O jovem que pensa em seguir carreira na função pública - vai entender que o caminho para o topo é servir o estado, não criar riqueza

Enquadramento Seletivo - O Expresso apresenta Nuno Santos Félix como um quadro de "elevado perfil técnico e político", omitindo o seu percurso de "camaleão do Bloco Central" e a natureza coerciva do cargo de chefe do fisco, normalizando a concentração de poder fiscal e de acesso a dados privados.
Linguagem Eufemística - O estado e os media usam expressões como "rosto mais humano à cobrança de impostos" para disfarçar a extorsão legalizada, enquanto o texto expõe a "candura desarmante" dos jornalistas ao descreverem a AT como "mais importante que muitos ministros", normalizando a opressão tributária.
Apelo à Autoridade - A notícia recorre à descrição de "competência técnica e política" e ao facto de o candidato ter sido "defensor do contribuinte" para legitimar a nomeação, ignorando que o cargo serve para confiscar riqueza e que o próprio percurso do nomeado é uma sucessão de cargos públicos financiados por impostos, como o texto critica ao compará-lo com os publicanos bíblicos.

  1. 1Imposto-roubo (Tax theft)Impostos são roubo institucionalizado pelo estado.

    Para um libertário, todo o imposto é confiscatório porque é cobrado sob ameaça de multa ou prisão. No artigo, a Autoridade Tributária é descrita como um aparelho de confisco que gere a maior base de dados financeira dos cidadãos. Isto ilustra o roubo legalizado: o estado exige dinheiro que os indivíduos ganharam voluntariamente, sem consentimento. A defesa de autonomia para a AT só reforça o poder de extorquir. Num mercado livre, os impostos seriam substituídos por pagamentos voluntários por serviços.

  2. 2estado como organização criminosa (State as a criminal organization)estado subsiste por coerção fiscal e monopólio da força.

    Rothbard define o estado como uma organização que vive de impostos-roubo e mantém monopólio territorial da força. O artigo mostra o estado português a nomear um director para a AT, que gere a informação financeira de todos e pode consultar dados sem autorização prévia. Isto é poder criminoso normalizado. Um estado assim não protege direitos; viola-os sistematicamente. A solução libertária é abolir o estado e substituí-lo por agências de defesa concorrenciais.

  3. 3Coerção fiscal (Fiscal coercion)Obrigação de pagar impostos sob pena de sanção.

    Coerção fiscal é a ameaça de força que sustenta o sistema tributário. No artigo, a AT é descrita como tendo acesso ilimitado a dados e capacidade de investigar sem depender de ordens - isto é coerção pura. O estado não precisa do seu consentimento para aceder à sua vida financeira. Os impostos não são voluntários; são extorquidos. Um libertário defende que qualquer contribuição deve ser voluntária, como numa sociedade de mercado.

  4. 4Normalização mediática (Media normalization)Meios de comunicação vendem poder do estado como natural.

    O Expresso apresenta a nomeação de Nuno Santos Félix como positiva, destacando o seu perfil técnico e político. Isto é normalização mediática: transformar um cargo de confisco e vigilância em algo respeitável. Os media, como agentes do estado intelectual, legitimam a máquina fiscal. Para um libertário, este alinhamento é perigoso porque esconde a violência do imposto. A crítica a esta normalização expõe como o jornalismo serve o poder em vez de o escrutinar.

  5. 5Autonomia da máquina fiscal (Autonomy of the tax authority)Pedido de rédea solta para a Autoridade Tributária.

    Nuno Santos Félix defende que a AT tenha autonomia financeira e administrativa, sem depender do ministro. Isto é um pedido de poder sem controlo. Para um libertário, mais autonomia para uma agência de roubo é pior: menos prestação de contas, mais capacidade de extorquir e vigiar. O artigo mostra que isso é apresentado como virtude. A verdadeira solução seria extinguir a AT e devolver o dinheiro ao povo.

  6. 6Bloco Central (Central Bloc)Conluio tácito de PS e PSD para gerir o saque estatal.

    O artigo chama a Nuno Santos Félix um camaleão do Bloco Central: militou na JSD (PSD) e depois foi para o PS. Isto ilustra a rotação de elites que mantém o estado independente da vontade popular. Para um libertário, o Bloco Central é a prova de que os partidos são cartéis que dividem o butim fiscal. Não há diferença entre esquerda e direita no que toca a sustentar o estado de bem-estar social. A competição política é uma farsa.

  7. 7Defesa do "contribuinte (Taxpayer defense)Ironia de um ex-defensor de "contribuintes" tornar-se chefe do Fisco.

    O artigo nota que Nuno Santos Félix começou a carreira a defender "contribuintes" e agora pode chefiar o aparelho que os assalta. Isto é uma contradição libertária clássica: quem antes se opunha ao estado acaba por se juntar a ele. A "defesa do contribuinte" é uma ilusão; o sistema fiscal não pode ser reformado, só abolido. O facto de um defensor virar cobrador mostra que o estado cooptou mais um crítico.

  8. 8Confisco estatal (State confiscation)Tomada forçada de propriedade via impostos.

    O artigo descreve a AT como um "aparelho de confisco estatal" que gere milhões de euros. Confisco é a tomada de propriedade sem consentimento do dono. No estado de Direito, isso é legal, mas para um libertário é imoral. O autor usa a Bíblia para comparar cobradores de impostos a publicanos - pecadores. Isto sublinha que o imposto não é uma contribuição voluntária, mas um roubo sistemático que nunca é devolvido.

  9. 9Criação de riqueza vs redistribuição (Wealth creation vs redistribution)estado só redistribui riqueza que outros criaram.

    O artigo critica Nuno Santos Félix por nunca ter criado riqueza, apenas redistribuído a de outros através de impostos. Para um austríaco, o empreendedorismo e o mercado criam valor; o estado destrói-o ao desviar recursos. A redistribuição é uma transferência coerciva que reduz os incentivos a produzir. O ideal libertário é uma sociedade onde ninguém pode viver de impostos e toda a riqueza é voluntariamente trocada.

  10. 10Publicano (Publican)Cobrador de impostos do Império Romano, metáfora de poder fiscal.

    O artigo usa "publicano" para descrever o novo director da AT, invocando a reputação bíblica dos cobradores de impostos como pecadores. Para um libertário, isto é acertado: o estado moderno é um império fiscal que extorque os cidadãos. Os publicanos eram odiados porque cobravam para um poder estrangeiro; hoje cobram para um estado nacional, mas a opressão é a mesma. A metáfora mostra que o poder fiscal nunca mudou de natureza.

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