
Empréstimos do estado desviam a produção e não criam riqueza
Análise Libertária
No capítulo seis aprendemos que criar crédito artificial, isto é, aumentar artificialmente a quantidade de empréstimos e de devedores, muda a estrutura de produção e não cria riqueza. Neste, encontramos a falácia dos "falsos recursos" ou dos "almoços grátis", baseada na ideia que se pode criar algo a partir de nada. Vamos supor que há duas formas de produzir janelas: a tradicional, levando os sacos de areia de um lado para o outro, à mão, e a moderna com carrinhos de mão. O vosso cunhado afirma com toda a confiança: - O estado deve incentivar que se empreste mais dinheiro aos fabricantes tradicionais de janelas para comprarem carrinhos de mão. Estes fabricantes estão a ir à falência porque não conseguem competir com os modernos que já os têm, porque são menos produtivos. Alguns destes, como a fábrica Janela Rápido, não têm acesso a dinheiro suficiente, quer porque ninguém lhes quer emprestar mesmo que consigam pagar, quer porque não conseguem pagar as prestações porque os credores cobram demasiados juros. Ao terem o dinheiro dos empréstimos, vão poder aumentar a produtividade, começar a ter lucro e depois pagar os empréstimos, especialmente se forem de juros baixos. Para além disso, se estes empréstimos não existissem, muitas empresas iriam à falência, o que iria levar muita gente para o desemprego, causando pobreza. No entanto, a vossa Avózinha sabe que o que está a ser emprestado não é o dinheiro, que é simplesmente um meio de troca, mas sim o capital. - Isso é muito bonito na teoria, meu filho, mas não existem carrinhos de mão infinitos. Quando a Janela Rápido receber o novo dinheiro para comprar um carrinho de mão, a Vidro Bonito já não o vai poder comprar. Ou, quando tiver dinheiro suficiente, vai ter de o comprar a um preço mais alto, porque há mais empresas a procurar carrinhos. E mesmo que produzisse mais carrinhos de mão, teríamos de produzir menos panelas que também usam aço. Se fosse realmente uma boa ideia, porque é que os bancos não estão a emprestar à Janela Rápido? - Porque a Janela Rápido está com dificuldades a pagar. Os bancos estão obcecados com fazer lucros, o que é mau. - E não é com o lucro que vês que estão a ajudar os outros? Pensa, se tu tiveres algum dinheiro no mealheiro e um amigo teu disser que quer começar a vender copos de vidro para bagaço, tu vais querer saber se o teu amigo consegue realmente fazê-los, e vais à oficina dele ver se está tudo bem. Sim, porque se as coisas correrem mal sou eu que fico sem o dinheiro. E se tiveres outro amigo a fazer copos de água e só puderes ajudar um, como vais escolher? Vou escolher o que for melhor. E como fazes isso? Tenho de saber que copos as pessoas realmente querem. E como descobres isso? Vejo por quais copos as pessoas estão dispostas a pagar. Exactamente. Agora pensa se for a Dona Manuela ali da Junta de Freguesia a escolher entre os teus amigos. Achas que ela vai estar realmente à procura de dar o dinheiro a quem fizer lucro, e de crescer o "seu" investimento, que nem é dela mas sim "de todos", sabendo que pode sair de lá daqui a 4 anos e deixar a substituta com os problemas? - Não necessariamente, mas ela pode ser despedida se fizer algo muito mau. - Talvez, mas se tu fores mau a escolher vais perder dinheiro; se ela for má vai continuar a receber o seu salário como dantes, justifica o prejuízo dizendo que "impediu a falência de uma empresa" e que "protegeu empregos" e até pode sair ilesa. Não te lembras do que aconteceu quando a junta reparou os buracos na estrada e 3 meses depois eles voltaram? Não lhe aconteceu nada. - Mas ela pode ser competente e pensar no bem comum. - Pode, mas ela não é uma supermulher benevolente. Ela é exactamente como tu e com os seus próprios interesses. Enquanto tu só tens de te preocupar no lucro monetário para servires o teu interesse próprio, e a consequência disso vai ser servires os consumidores com produtos que eles querem a um preço razoável, ela está preocupada em manter o seu emprego. E como é que ela faz isto? - Com votos. - Se for política. Ou com votos para os partidos que a mantêm naquela posição dentro da burocracia. E nas burocracias existem muitos jogos de favores. Qual dos teus amigos achas que tem mais conexões lá dentro? - Bem, já vi o Manuel a almoçar com alguns dos vereadores… - E se o Francisco tiver um melhor produto, achas que vai ser ele a receber o dinheiro? - Mas calma, as coisas funcionam com regras: todos eles têm de se candidatar a um concurso público. - Que são muito complicados de preencher e que a Dona Manuela pode ajudar o Manuel a fazer… E depois pode ser ela própria a aprovar e escolher quem os recebe. Estás a ver a diferença entre um credor privado e um programa do estado? - Percebo o que está a dizer, mas mesmo assim acho injusto algumas pessoas do setor privado ganharem dinheiro a emprestar aos outros, enquanto outros investidores podem perder. Pelo menos com o estado o dinheiro é de todos e se o investimento correr bem, volta para nós. Se correr mal, o dinheiro foi usado para comprar outros produtos e volta na mesma para nós mas de outra forma. - Injusto é todos ficarem prejudicados enquanto uns saem beneficiados. Se os privados conseguem escolher melhor a quem emprestar dinheiro porque são diretamente responsáveis se correr bem (ou mal), vão escolher investimentos que as pessoas realmente querem e que as vão ajudar, se não as pessoas não comprariam os produtos e a empresa não teria lucros para pagar aos credores. E os privados que forem maus a escolher como alocar os recursos da sociedade vão perder este privilégio de escolher. Os bons são premiados, os maus são afastados, tanto os credores como os donos das empresas. É uma destruição criativa por assim dizer. Mas o estado quer parecer como uma entidade benevolente, por isso cria programas para emprestar dinheiro precisamente às empresas que não conseguem suportar esta dívida, as empresas que são as menos eficientes a produzir. - Tipo a empresa de pesca à mão do Tio Zequinha? - Sim! O Tio Zequinha recebeu aquele empréstimo com garantias do estado no ano passado, e agora vê-se grego para pagar a dívida, porque não arranja sequer clientes aos preços que ele quer vender. Apanhar um peixe por dia não paga propriamente as contas. Ficámos melhor ou pior depois deste empréstimo? Em conclusão, crédito artificial não cria riqueza. Se o estado tem tendência para escolher as pessoas menos produtivas para emprestar recursos, e os privados para escolher as pessoas mais produtivas, os empréstimos dos privados vão criar mais riqueza do que os do estado. Na realidade, crédito é uma forma de alocar os recursos que existem (o capital) entre várias pessoas. Se as pessoas menos eficientes ficarem com o capital, teremos menos riqueza, o que pode contribuir, a longo prazo, para uma recessão económica (como veremos mais à frente).
Partilha este artigo com:
- Quem defende subsídios estatais para "salvar empregos" - vai perceber que emprestar dinheiro a empresas ineficientes só desvia recursos de quem realmente produz valor e cria pobreza em vez de riqueza.
- O jovem que quer entender economia sem teorias complicadas - vai aprender na prática como o lucro privado sinaliza o que as pessoas realmente querem, enquanto a burocracia serve interesses políticos.
- O funcionário público ou político local - vai confrontar-se com o problema dos incentivos perversos nas instituições estatais e compreender por que decisões políticas quase nunca beneficiam o conjunto da sociedade.
1Crédito artificialEmpréstimos criados do nada sem poupança real prévia.
É quando bancos centrais ou o estado injetam dinheiro no sistema sem que alguém tenha poupado primeiro. No texto, o cunhado quer que o estado empreste dinheiro que não existe a empresas ineficientes. Resultado: inflação e distorção na economia, como quando Portugal emitiu títulos do Tesouro para resgatar bancos.
2CapitalBens usados para produzir outros bens, não é dinheiro.
São as ferramentas, máquinas e materiais que servem para produzir. A avó explica que não há carrinhos de mão infinitos - o crédito artificial não cria capital real. Se a Janela Rápido comprar um carrinho, a Vidro Bonito deixa de o poder comprar.
3PreçosSinais que mostram o que as pessoas realmente valorizam.
Os preços dizem-nos o que as pessoas querem comprar e quanto estão dispostas a pagar. A avó mostra que os copos pelas quais as pessoas pagam revelam as suas preferências reais. Sem preços livres, não há forma de saber o que convém produzir.
4LucroSinal de que uma empresa serve bem os consumidores.
O lucro mostra que a empresa está a dar às pessoas o que elas querem a um preço que aceitam pagar. A avó explica que bancos privados querem lucro, por isso escolhem empresas viáveis. O estado não precisa de lucrar, por isso escolhe mal.
5Destruição criativaEmpresas ineficientes falhem para libertar recursos.
Quando empresas ruins fecham, os recursos que usavam ficam livres para empresas melhores. No texto, a fábrica tradicional deveria falhar para os carrinhos irem para quem produz melhor. Em Portugal, manter empresas estatais a perder dinheiro impede este processo.
6Interesse próprioCada pessoa age para melhorar a sua própria situação.
As pessoas buscam o seu bem-estar, não o bem alheio. A avó mostra que a Dona Manuela quer manter o emprego e votos, não ajudar a economia. O interesse próprio do empreendedor acaba por servir os outros porque precisa de os satisfazer para ganhar dinheiro.
7Falácia do almoço grátisIdeia errada de que se pode obter algo sem custos.
Achar que o estado pode dar empréstimos sem ninguém pagar por isso. No texto, criar crédito artificial parece ajudar, mas alguém perde: quem pagaria mais pelo carrinho de mão ou quem deixou de ter panelas. Toda a escolha tem um custo de oportunidade.
8Alocação de recursosDecidir quem usa os bens escassos disponíveis.
Como distribuir o capital limitado entre quem o quer usar. O texto mostra que crédito é uma forma de alocar recursos. Se o estado empresta a empresas ruins como a do Tio Zequinha, o capital deixa de chegar a quem produzia mais e melhor para a sociedade.
Informações
em 22 de fevereiro de 2026
Conteúdo Relacionado
Glovo admite que o seu trabalho é adaptar-se à regulação
SitePacote fiscal travado, preços das casas sobem 27%
SiteBloco quer mercearia pública paga pelos lisboetas
Siteestado rouba 10% a 50% dos salários e empobrece gerações
YouTubeDebate: estado falha na saúde, educação e economia
YouTubeComentários sobre as Festas Natalícias
Site