
Jornalista troca redação por assessoria de Luís Neves
Análise Libertária
Dois em um: Valentina Marcelino, o "Luís Neves" do jornalismo. Editorial de Pedro Almeida Vieira. 01/03/2026.
A nomeação de Luís Neves para o ministério da Administração Interna, vindo directamente da direcção da Polícia Judiciária, já era, por si só, um sinal preocupante de promiscuidade entre estruturas do estado que deveriam manter distância funcional e ética. A política gosta destas passagens rápidas, destas portas giratórias que dispensam quarentenas morais e escrutínio público, embora esta tenha batido o recorde de falta de pudor. Mas agora, como se não bastasse, o jornalismo resolveu imitar o pior da política - e fê-lo com desvergonha.
Neste domingo, a jornalista Valentina Marcelino, directora-adjunta do Diário de Notícias, anunciou que integrará a equipa do ministro Luís Neves como "assessora política". Note: assessora política - nem sequer é uma "simples" assessora de comunicação. A própria anuncia o "feito" no LinkedIn, explicando, com um entusiasmo revelador, que a "segurança interna é o mundo que acompanha profissionalmente e traz no coração há mais de 20 anos", acrescentando - já em plural governativo - que "estamos determinados em construir um país onde os cidadãos se sintam ainda mais seguros". O plural não é um lapso: é a confissão.
Valentina Marcelino passa directamente da direcção editorial do Diário de Notícias para a assessoria política do ministro da Administração Interna.
Este caso não é apenas uma escolha infeliz de percurso profissional - é a prova material de uma confusão deliberada entre análise jornalística e interesse pessoal, entre comentário e carreira, entre notícia e alinhamento. E uma estratégia pessoal de muitos jornalistas: aproveitarem-se da profissão para darem o salto.
No caso particular de Valentina Marcelino, isso já se mostrava notório: no ano passado, "apostou" no "cavalo presidencial", escrevinhando uma longa entrevista laudatória a Gouveia e Melo, transformada em livro de encómios do presidenciável, mas o sonho ficou pelo caminho.
Esta mesma jornalista que, enquanto directora-adjunta e comentadora, produziu e avalizou peças sistematicamente elogiosas sobre a actuação da Polícia Judiciária sob a liderança de Luís Neves, que recentemente, nas páginas do Diário de Notícias e no ecrã da CNN Portugal, teceu rasgados elogios ao então recém-nomeado ministro, surge agora recompensada com um lugar no aparelho político que sempre tratou com benevolência.
No dia 21 de Fevereiro, Valentina Marcelino fez mais elogios como jornalista-comentadora ao seu agora "patrão" na CNN Portugal.
A pergunta impõe-se na esfera das direcções editoriais dos órgãos de comunicação social: onde acaba a justeza da análise e onde começa a gestão de currículo? Onde termina o dever de escrutinar e onde se inicia a construção de afinidades úteis? Quando a crítica desaparece por completo e o elogio se torna regra, o jornalismo deixa de informar e passa a preparar o próximo cargo.
Vejo, nas redes sociais, uma procissão de parabéns à directora-adjunta do Diário de Notícias de hoje e à. Não os dou. Não posso dá-los. Há até quem lhe diga, nos comentários ao seu post no LinkedIn, que o jornalismo fica mais pobre com a saída. Nesse caso, discordo: o jornalismo fica mais bem servido quando se liberta de uma situação de elevadíssima e intolerável promiscuidade. Fica mais claro, mais honesto e - sobretudo - menos cínico.
Aquilo que tem empobrecido o jornalismo não é a saída definitiva de quem já não o exercia com distância; é a permanência de quem confunde redacção com antecâmara ministerial.
Luís Neves tomou posse no dia 23 de Fevereiro, saindo directamente da direcção da Polícia Judiciária.
Nada disto surpreende, aliás, quem acompanha a rápida degradação do Diário de Notícias, um jornal histórico, agora sob a liderança de Filipe Alves, reduzido a plataforma de transição e a espaço de legitimação de percursos políticos.
Mas cada episódio destes é mais uma machadada na credibilidade da profissão e na confiança dos leitores. Não se trata de impedir escolhas individuais - trata-se, sim, de exigir coerência e decência. Quem quer fazer política, faça-a. Quem quer ser assessor, assuma-o. Aquilo que não é aceitável é usar o jornalismo, ainda mais quando se está em lugares de direcção editorial, como escada.
Partilha este artigo com:
- Jornalistas e diretores de redação que valorizam a independência profissional - para refletirem sobre os riscos de confundirem a análise noticiosa com a construção de pontes para cargos políticos, preservando assim a credibilidade da profissão
- Leitores habituais do Diário de Notícias e de outros órgãos de comunicação social - para compreenderem como certas coberturas editoriais podem estar condicionadas por estratégias de carreira pessoal em vez de servirem o interesse público
- Cidadãos preocupados com a transparência nas instituições democráticas - para tomarem consciência de como as portas giratórias entre o jornalismo e o aparelho de estado enfraquecem o escrutínio que uma sociedade livre exige
1Portas giratóriasPassagem rápida entre estado e empresas ou cargos políticos.
É quando alguém sai de um cargo público e entra logo noutro ligado ao mesmo sector, sem esperar tempo nenhum. O artigo mostra isso com Luís Neves, que saiu da Polícia Judiciária e entrou diretamente para ministro. Deveria haver um período de espera para evitar conflitos e suspeitas.
2Captura do estadoQuem fiscaliza passa a defender os fiscalizados.
Acontece quando quem deveria vigiar o poder acaba a trabalhar para ele. Valentina Marcelino elogiava sistematicamente a Polícia Judiciária e agora vai trabalhar para o ex-diretor dessa mesma polícia. A independência desapareceu muito antes da mudança formal.
3Aparelho de estadoRede de cargos e funções que mantém o poder funcionando.
O conjunto de pessoas e organismos que compõem o estado e que se perpetuam. O artigo refere 'o aparelho político' como destino da jornalista. Quem entra nesse circuito passa a defender os interesses do estado, não dos cidadãos.
4CorporativismoAliança entre estado, grandes empresas e comunicação social.
Um sistema onde governo, grandes grupos económicos e órgãos de informação trabalham juntos para seus próprios benefícios. O Diário de Notícias, sob nova direção, serve de plataforma para legitimar quem quer passar para a política. É uma troca de favores disfarçada de jornalismo.
5Quarentena moralPeríodo de espera entre cargos para evitar conflitos.
Um tempo de pausa que deveria existir quando alguém muda de uma função de fiscalização para uma posição no mesmo sector. Não existe em Portugal de forma eficaz. A política gosta destas passagens rápidas porque servem os interesses de quem está no poder.
6Independência editorialLiberade dos órgãos de informação em relação a poderes.
A capacidade de um jornal ou canal de televisão analisar e criticar sem depender de quem governa ou de grupos económicos. O artigo denuncia que essa independência foi perdida quando comentadores elogiam quem depois lhes dá emprego. Sem independência, não há jornalismo de verdade.
7FretesFazer trabalho por interesse de terceiros, não do público.
Expressão usada no artigo para descrever jornalismo que serve interesses alheios. Quem usa a profissão como escada para cargos políticos está a fazer fretes, não a informar cidadãos. O jornalismo independente, como o autor defende, deve depender só dos leitores.
8Conflito de interessesInteresses pessoais contra dever profissional.
Situação em que o que convém a uma pessoa entra em rota de colisão com o que deveria fazer profissionalmente. Uma diretora-adjunta que elogia quem depois a contrata está em conflito de interesses. O problema é quando isso passa despercebido ou é aceite como normal.
9Elite governativaGrupo que detém o poder político efetivo.
O conjunto restrito de pessoas que realmente mandam no país, independentemente dos votos. Jornalistas que entram para governos, ex-diretores de polícia que viram ministros — tudo parte da mesma elite que troca cargos entre si. O plural que Valentina usou revela que já se via dentro dessa elite.
10Escrutínio públicoExame e crítica feita pela sociedade.
A análise detalhada que os cidadãos e a comunicação social deveriam fazer a quem exerce poder. O artigo denuncia que esse escrutínio desapareceu: em vez de criticar, certos órgãos de informação preparam o terreno para quem lhes convém. Sem escrutínio, não há accountability.
Informações
em 2 de março de 2026
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