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A Democracia Não Pode Conduzir à Autogovernação
Site· Mises Portugal· Jeb Smith, Paulo Jorge Cruchinho

A Democracia Não Pode Conduzir à Autogovernação

Análise Libertária

A Democracia Não Pode Conduzir à Autogovernação

As democracias acabam por se tornar antidemocráticas porque apenas uma pequena minoria de radicais (políticos, grupos de interesse, grandes corporações, etc.) consegue centralizar o poder na capital. Manipulam as engrenagens do governo, colocam os seus representantes no poder e fazem propaganda através da educação governamental e dos media. Como indivíduos numa democracia, perdemos todo o poder. Só os senhores detêm o poder, e as suas agendas conflituantes garantem conflitos e discórdia. Estes grupos não procuram a representação individual para nós, mas sim subjugar os indivíduos fora do seu alcance aos seus ditames pela força dos números.

Em democracia, a maioria ganha. Assim, o jogo deixa de ser sobre os desejos individuais e passa a ser sobre atrair mais pessoas de fora para formar a maioria e garantir o poder. O indivíduo perde toda a esperança de autogovernação; a sua única hipótese de obter alguma representação é comprometer-se e juntar-se a um grande grupo que, pelo menos, represente menos do que tudo aquilo que despreza.

O governo democrático centralizado moderno retira a autodeterminação ao povo e coloca-a nas mãos dos principais partidos políticos e dos seus financiadores. A auto-representação não é conseguida pelo voto; não está a escolher um líder de um grupo que concorda com a sua vontade. Em vez disso, os partidos nacionais dirigidos por grandes corporações escolhem ferramentas leais e obedientes (políticos) para fazer o que lhes mandam. Ter permissão para votar quando não se tem qualquer hipótese de ser representado (a não ser escolher o que parece ser o menos pior) não é representação. O voto existe para fornecer uma desculpa para uma burocracia inchada subjugar os indivíduos que não consentem, que ela molda, manipula e dos quais explora.

Na sua essência, a democracia é desprovida de tolerância e diversidade. Em vez de aceitação, procura a conversão e a submissão. Devemos permitir que os outros discordem de nós, tenham as suas próprias opiniões e vivam de acordo com elas. Desta forma, todos podem alcançar a autogovernação e ninguém tem de tentar controlar os outros. Devemos retirar a vontade da maioria como nossa autoridade política e devolver a soberania ao indivíduo.

Para ter uma ideia básica de autogoverno, imagine que cada condado ou cidade dos Estados Unidos era autónomo. Haveria então milhares de formas de governo, e cada esfera seria suficientemente pequena para que as vozes dos indivíduos fossem ouvidas, sem que os partidos nacionais interferissem nas escolhas locais. Imaginem, liberais, se Donald Trump e os cristãos evangélicos não tivessem poder sobre vós. Republicanos, imaginem se já não existisse uma agenda libertária. Libertários, podiam legalizar a liberdade!

Além disso, não seria necessário lutar para manter o poder. Cada sociedade estaria livre de conflitos políticos internos, erradicando tanta raiva e ódio entre as pessoas. Seria possível viver com pessoas que partilham os mesmos ideais, todas governadas como se desejasse; um todo unificado. Em vez dos ditames modernos de cima para baixo vindos de Washington, teríamos decisões de baixo para cima, e o povo voltaria a ser a prioridade, em vez do governo.

Institucionalizamos a discriminação das opiniões minoritárias através do voto. A cada dia que uma legislatura se reúne, tem o poder de aprovar leis contra a sua consciência, e a sua propriedade fica em perigo. Até o seu discurso, os seus pensamentos e os seus modos de agir são regulados. A democracia é demoníaca. É o oposto de "Faz aos outros o que gostarias que te fizessem a ti".

Numa democracia, só os grandes grupos, ou, como hoje lhes chamamos, os partidos políticos, podem alcançar o poder de manipular o governo a seu bel-prazer. Esta realidade exige doutrinação para que os líderes destes grupos possam manter o poder e influenciar os indivíduos no futuro, levando-os não só a aceitar a situação actual, mas também a conformarem-se com a sua forma de pensar.

Como os indivíduos ou as pequenas comunidades locais enfrentam uma oposição esmagadora destes poderes instituídos, torna-se quase inconcebível a criação de um novo partido fora dos já existentes. Além disso, é impossível reformar um sistema tão corrupto, construído sobre a exploração da sociedade, onde muitas pessoas, tanto poderosas como dependentes, têm interesse em manter o sistema vigente. O resultado de toda a democracia é a existência de um ou dois clubes influentes de corporações de elite, políticos, militares e grupos de interesse que manipulam a sociedade.

Os lobistas, os média e os financiadores mais influentes usam o seu poder para dirigir a opinião pública e impedir que os candidatos opositores ganhem força. Impedem qualquer ameaça séria que ofereça às pessoas uma alternativa a uma democracia centralizada e burocrática.

Uma vez entrincheirados, parece impossível removê-los. Até certo ponto, os eleitores podem destituir os políticos individualmente e escolher entre uma variedade de representantes partidários acreditados; contudo, não conseguem remover com a mesma facilidade os poderes que sustentam os políticos.

Se eu lhe desse a opção de escolher qualquer animal de estimação que desejasse, mas apenas lhe oferecesse um elefante ou um burro, quem escolheria? Muito provavelmente, preferia um cão, um gato, um peixe ou outro animal qualquer (esperemos que não uma cobra), mas, na política americana, só temos duas opções.

Voto num terceiro partido não apenas porque desprezo os principais, mas porque não me quero tornar cúmplice, impondo as minhas escolhas a pessoas inocentes (não votantes). Jamais votaria intencionalmente para controlar os outros contra a sua vontade. Preocupo-me menos em subjugar outros eleitores porque considero que esta é uma luta justa. Já estamos em guerra política; estão a invadir a minha casa, tentando impor os seus costumes à minha família e a mim. Por isso, o meu voto num terceiro partido é, de certa forma, uma táctica defensiva de "guerra justa", seguramente condenada à derrota. Além disso, não desejo escolher um vencedor porque a ideia de me tornar cúmplice da doutrinação, da opressão, do roubo, do belicismo e de outras atrocidades dos partidos principais me repugna.

Ter um governo republicano ou democrata quando não o apoiei, votei ou desejei, não é representação. Posso ser prejudicado num ciclo eleitoral pela mão direita do governo e no seguinte pela esquerda, mas preferia não ser prejudicado de forma alguma.

A liberdade que os eleitores acreditam existir na democracia é, na verdade, a liberdade de escolher qual o grupo regulador intervencionista centralizado, que procura controlar a economia, a política e as mentes dos seus cidadãos, irá vencer, tornando ainda mais ridicularizável o autogoverno.

Se o eleitor americano típico fosse honesto, admitiria que só escolhe o menos pior. Acredito que possa não gostar do "seu candidato", mas não quer certamente o "outro candidato". Por exemplo, de acordo com uma sondagem realizada durante as eleições presidenciais de 2020 - na qual estavam representados os dois políticos mais desejados por cada partido - a maioria dos eleitores acreditava que ambos os candidatos eram mentalmente incapazes para o cargo.

Vemos evidências disso entre os principais candidatos do partido à presidência. É certo que, para chegar a este ponto dentro do partido, os políticos tiveram de se conformar até certo ponto, mas alguns inconformistas e candidatos com tendências dissidentes ainda conseguem apoio. No início das eleições primárias, os apoiantes do partido têm mais opções e, frequentemente, vemos uma grande percentagem dos votos distribuída pelos candidatos. À medida que os candidatos marginais são eliminados, os membros leais do partido continuam a apoiá-lo, mas cada vez mais apenas para derrotar a candidatura adversária.

Descobri que os membros de ambos os partidos admitem falhas dentro dos seus grupos. Chegam mesmo a assumir-se publicamente e a dizer que discordam de muitas coisas. Além disso, muitas vezes não desejam impor as suas ideias aos outros. No entanto, ostentam com orgulho a bandeira da sua equipa porque querem impedir que o outro partido lhes imponha as suas ideias nefastas e imorais. Por outras palavras, estão a lutar contra algo, e não a defender algo. Não estão tanto a atacar os outros, mas sim a proteger-se.

É também revelador que os políticos de ambos os lados apresentem os seus estilos de vida como estando sob ataque da oposição. Todos estão na defensiva, constantemente sob o potencial risco da subida do adversário ao poder. Devido à democracia, devem estar continuamente "politicamente activos", doar aos partidos, votar nos representantes dos partidos e decorar um catecismo sob a forma de pontos de discussão política para evangelizar os outros, na esperança de manter uma aparência de autogoverno. A democracia garante que é necessário um esforço constante para evitar a tirania contínua, assegurando ao mesmo tempo a impossibilidade de alcançar o autogoverno.

Mesmo votando no candidato vencedor, ainda assim não teremos autogoverno. Escolher um candidato é muito semelhante a escolher um sabor de gelado; existe alguma variedade, mas os republicanos e os democratas, faces da mesma moeda, são basicamente iguais. Para ser eleito a nível nacional, precisa, em geral, de se conformar com o padrão estabelecido. Se se desviar, se pensar por si próprio e se for honesto, terá poucas hipóteses, porque o político mentiroso que está ao seu lado pode autopromover-se melhor do que você. Ele pode fazer promessas que não tem qualquer intenção de cumprir, enquanto você precisa de ser sensato. Terá também o apoio do partido.

Está a jogar no território deles; pelas suas regras, o sucesso está longe de ser garantido para um candidato que não se conforme com as normas e que deseja ser eleito.

Os partidos nacionais bem-sucedidos são diluídos ao mínimo denominador comum para angariar votos suficientes. O resultado é que os princípios e a diversidade não têm lugar. Em vez disso, os partidos nacionais garantem a exclusão de pensadores independentes e de minorias, e os seus votos e vozes perdem-se num mar de zombies monótonos que seguem cegamente o partido a que pertencem.

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  • O eleitor desiludido que vota sempre no "menos pior" - vai compreender por que razão o sistema democrático centralizado nunca lhe dará verdadeira representação
  • O defensor do poder local que sonha com comunidades autónomas - vai encontrar argumentos sólidos para descentralizar decisões políticas e devolver a soberania ao indivíduo
  • O cidadão que questiona se democracia equivale a liberdade - vai descobrir como o voto majoritário se transforma num instrumento de coerção sobre minorias e indivíduos

Falsa Dicotomia - O sistema partidário apresenta apenas duas opções como se fossem opostas, quando na realidade ambas servem os mesmos interesses corporativos e estatais, criando a ilusão de escolha enquanto excluem qualquer alternativa genuína.
Legitimação pelo Voto - O acto de votar é apresentado como exercício de liberdade e representação, quando na realidade serve para dar aparência democrática à subjugação de quem não consentiu e nunca será representado.
Doutrinação Institucional - O estado utiliza a educação estatal e os meios de comunicação para moldar as mentalidades desde cedo, garantindo a conformidade com o sistema e impedindo que os indivíduos questionem a ordem estabelecida.

  1. 1AutogovernaçãoCada pessoa rege a própria vida sem imposições externas.

    É o ideal em que cada indivíduo ou comunidade local toma as suas próprias decisões. O artigo argumenta que a democracia impossibilita isto porque o poder fica nas mãos de partidos nacionais. Se cada cidade fosse independente, podias viver num sítio com regras que aceitas.

  2. 2Grupos de interesseOrganizações que pressionam o estado para obter vantagens.

    São pequenos grupos organizados que conseguem leis e favores do governo em troca de apoio político. No texto, vemos como manipulam o poder para seus fins. Um exemplo clássico são as grandes empresas que pedem proteção contra concorrência estrangeira.

  3. 3IntervencionismoO estado a interferir na economia e nas escolhas pessoais.

    Refere-se à ação constante do governo para controlar a economia, a política e até o pensamento dos cidadãos. O autor critica como os partidos usam esta ferramenta para manter o poder. Um exemplo são os subsídios a indústrias falidas que sobrevivem apenas por dinheiro público.

  4. 4LobistasProfissionais pagos para influenciar políticos a favor de clientes.

    São pessoas ou grupos que usam dinheiro e influência para direcionar a opinião pública e impedir candidatos alternativos. O artigo mostra como controlam quem pode ou não chegar ao poder. Em Bruxelas, milhares de lobistas trabalham para grandes corporações junto das instituições europeias.

  5. 5Tirania da maioriaA maioria a impor as suas vontades à minoria.

    Ocorre quando 51% decidem o que os outros 49% devem fazer contra a sua vontade. O texto descreve isto como institucionalizar a discriminação das opiniões minoritárias através do voto. Se 51% votarem para tirar propriedade aos 49%, a democracia permite.

  6. 6DoutrinaçãoEducação e meios de comunicação usados para moldar o pensamento.

    É o uso de escolas públicas e meios de comunicação controlados para que as pessoas aceitem o sistema existente. O autor aponta isto como essencial para as elites manterem o poder. As escolas públicas ensinam a confiar no estado, não a questioná-lo.

  7. 7CentralizaçãoConcentrar o poder numa capital longe dos cidadãos.

    Significa retirar decisões das comunidades locais e colocá-las nas mãos de funcionários distantes. O texto critica como Washington dita regras de cima para baixo. Em Portugal, Lisboa decide quase tudo, mesmo para o Alentejo ou o Minho.

  8. 8Conformismo políticoAceitar as regras do jogo para ter sucesso eleitoral.

    É a necessidade de seguir o padrão estabelecido pelos partidos para ser eleito. O autor explica que pensadores independentes são excluídos do sistema. Um político honesto tem poucas hipóteses contra um mentiroso que faz promessas impossíveis.

  9. 9RegulaçãoRegras impostas pelo estado que limitam a liberdade.

    São leis e normas que controlam o discurso, os pensamentos e os modos de agir das pessoas. O texto fala de como a tua vida fica regulada por quem nem conheces. Um exemplo são as licenças para exercer profissões simples como cortar cabelo.