Voltar ao propaganda.pt
OPEP prevê mais 23% de energia até 2050 e culpa falta de investimento
Site· Observador· Agência Lusa

OPEP prevê mais 23% de energia até 2050 e culpa falta de investimento

Ouvir o podcastEm discussão: OPEP prevê mais 23% de energia até 2050 e culpa falta de investimento

Faz download e partilha nas redes

O secretário-geral da OPEP, Haitham Al Ghais, avisa que o mundo vai precisar de mais 23% de energia primária até 2050 e atribui a escassez atual de diesel, combustível para aviões e gasolina à falta de investimento - numa indústria em que, como ele próprio lembra, uma refinaria leva cinco, seis ou sete anos a começar a produzir. O Observador dá conta destas declarações, e o ponto de partida é simples: ninguém consome energia por decreto, mas quem pode explorar, refinar e vender é decidido por governos e por um cartel de estados produtores. Fica a pergunta que interessa a quem enche o depósito: quem trava a oferta, quem ganha com a escassez e quem acaba a pagar por ela.

Análise Libertária

Haitham Al Ghais, secretário-geral da organização dos países exportadores de petróleo (OPEP), disse-o esta segunda-feira sem grandes voltas: "o mundo vai precisar de mais 23% de energia primária entre agora e 2050". E juntou-lhe um diagnóstico. A escassez de diesel, de combustível para aviões e de gasolina que hoje se sente não vem de o petróleo ter acabado: vem de não se ter investido o suficiente.

Convém explicar o termo, porque a discussão vive dele. Energia primária é a que se recolhe diretamente da natureza, como o petróleo, o vento ou o sol. A secundária é o resultado da transformação dessa matéria: gasolina, eletricidade. Quando se fala de mais 23%, fala-se da coisa em bruto, antes de chegar a qualquer lado.

A parte mais reveladora da intervenção, na 25.ª edição do congresso de energia do conselho mundial do petróleo, na capital da Arábia Saudita, não foi o número. Foi a questão do tempo. Ninguém constrói uma refinaria e vê-a a produzir no dia seguinte - "Não funciona assim", disse. É uma indústria "com prazos de execução longos" e que "requer muito planeamento": quem investe hoje só colhe dentro de cinco, seis ou sete anos.

Isto parece conversa de engenheiro, mas é onde a política se afunda. Se um produto demora meia década a existir, então quem decide hoje o que se pode construir está a decidir o que vai haver em 2040 sem o admitir. E na Europa essa decisão tem sido tomada no sentido de restringir a oferta própria e confiar que a procura se ajusta sozinha. Cinco chefes de governo, um deles o português, assinaram uma carta em defesa do regime de comércio de emissões, aquele mercado de licenças que empurra a fatura da energia para cima, contra os que queriam suspendê-lo.

Do lado de cá, a mesma lógica em versão pequena. Quem decide recusa investimento em nuclear e trata as renováveis subsidiadas como a única via racional, como se a escolha competisse a um gabinete. São decisões tomadas por gente que não paga a fatura nem espera sete anos por um litro de gasolina.

O preço, entretanto, faz o trabalho que os decretos estragam. Quando sobe, diz a quem investe onde falta produto. Quando o estado o abafa com impostos, taxas e tarifas, o sinal chega distorcido - e o consumidor apanha as duas pontas. Já aconteceu: quando o preço do petróleo desceu, a descida não chegou toda à bomba, porque uma parte substancial ficou retida em receita fiscal, sem que isso merecesse grande alarido.

Depois, quando aperta, o pedido é sempre o mesmo: que o cidadão consuma menos. Apelos à redução voluntária, teletrabalho, domingos sem carro, planos para libertar reservas estratégicas, enquanto se pede sacrifício a quem já paga. O estado raramente se inclui na lista dos que devem cortar, e os investimentos que falharam durante uma década continuam por fazer.

Vale a pena olhar para o outro lado da mesa. A OPEP não é um mercado: é um clube de estados que combina produção. O próprio secretário-geral disse que os membros investem em petróleo, gás, infraestruturas e apólices de seguro, e também noutras fontes de energia. A previsão dos 23% serve igualmente de argumento comercial - se o mundo vai precisar de mais energia, quem tiver capacidade instalada vende-a mais caro. Isso não torna a aritmética falsa. Torna apenas claro que o consumidor está entalado entre dois blocos que planificam: o clube de produtores e o estado que lhe impõe impostos e preços.

No fim, fica o essencial. A procura de energia não obedece a comunicados. Pode taxar-se um combustível, proibir-se outro, subsidiar-se o eleito, mas o litro que falta não aparece por vontade política. Aparece, ou não aparece, porque alguém pôde investir sete anos antes e tinha razões para o fazer. Quando essa possibilidade é fechada, quem fica sem escolha é o mesmo de sempre: quem enche o depósito e acende a luz.

Partilha este artigo com:

  • Dono de uma empresa de transportes que paga diesel todas as semanas - Interessa-lhe saber que o próprio secretário-geral da OPEP atribui a escassez de gasolina e gasóleo à falta de investimento e não a uma qualquer lei da natureza. Ajuda-o a perceber quanto tempo demora a abrir uma refinaria antes de voltar a culpar o posto de abastecimento.
  • Investidor particular com dinheiro em petróleo, gás ou refinação - A previsão de 23% mais energia primária até 2050 é um argumento sobre procura futura e prazos de execução longos. Dá-lhe matéria para avaliar se o capital está a fugir do setor por pressão política e o que isso pode fazer aos preços.
  • Estudante de engenharia ou técnico a trabalhar numa refinaria - O aviso de que é preciso investir hoje para produzir dentro de cinco, seis ou sete anos mostra porque é que esta indústria não reage a decretos nem a bazucas de curto prazo. Quem escolhe carreira aqui ganha contexto sobre o valor do trabalho especializado e a escassez que se avizinha.

Previsão de mais 23% de energia primária até 2050 - Haitham Al Ghais, secretário-geral da organização dos países exportadores de petróleo, afirma no congresso de energia do conselho mundial do petróleo, na Arábia Saudita, que "o mundo vai precisar de mais 23% de energia primária entre agora e 2050" e converte essa projeção num argumento para mais investimento estatal em petróleo, gás e infraestruturas, revelando a lógica de quem prefere decidir de cima para baixo o que milhões de pessoas vão consumir daqui a 25 anos em vez de deixar os preços e as escolhas individuais sinalizar onde o capital faz falta.
A "escassez" de diesel, combustível para aviões e gasolina atribuída à falta de investimento - o dirigente explica que não se pode dizer ""Olha, estou com escassez e vou construir uma nova refinaria para que comece a produzir imediatamente". Não funciona assim", porque a indústria tem "prazos de execução longos. Requer muito planeamento" e é "preciso investir hoje para poder produzir dentro de cinco, seis ou sete anos, tanto nas atividades de exploração e produção como nas de refinação e distribuição"; o próprio diagnóstico mostra que a oferta de hoje é fruto de decisões de investimento tomadas há anos e que quem trava esse investimento colhe o resultado na bomba sem nunca assumir o custo.
A OPEP como clube de estados que decide onde investir - em petróleo, gás, seguros e também noutras fontes - Al Ghais diz que "continuamos a investir nos países membros da OPEP em petróleo e gás, em infraestruturas para o petróleo e o gás e nas apólices de seguro que precisamos de ter em vigor. Mas também investimos noutras fontes de energia", ou seja, a oferta mundial de energia é coordenada por um grupo de governos produtores, e não por proprietários em concorrência, o que restringe a competição, protege produtores menos eficientes e deixa ao consumidor a fatura de decisões sobre as quais nunca foi chamado a escolher.

  1. 1Energia primária (Primary energy)Energia tal como sai da natureza.

    É o petróleo, o gás, o vento ou o sol antes de serem transformados. A gasolina ou a eletricidade já são energia secundária, porque resultam de uma transformação. O artigo usa este conceito para falar da procura total de energia, não apenas da eletricidade que chega às casas.

  2. 2Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEC)Grupo de países que coordenam a produção de petróleo.

    Conhecida pela sigla OPEP, reúne países produtores que combinam quotas de produção para influenciar o preço mundial. Quem fala em nome dela é o secretário-geral, Haitham Al Ghais, citado no artigo. É um cartel: os membros decidem em conjunto quanto extraem, em vez de competirem livremente.

  3. 3Refinaria (Refinery)Fábrica que transforma petróleo bruto em combustíveis.

    É onde o crude se separa em diesel, gasolina ou combustível para aviões. O artigo explica que não se constrói uma refinaria de um dia para o outro: exige planeamento e anos de obras. Por isso, uma escassez hoje não se resolve com uma decisão tomada hoje.

  4. 4Prazos de execução longos (Long lead times)O tempo entre decidir e ter o resultado.

    Na indústria do petróleo, entre explorar, produzir, refinar e distribuir passam-se cinco, seis ou sete anos. Al Ghais usa este argumento para dizer que é preciso investir agora para haver combustível depois. É também o argumento que explica por que a oferta não reage depressa a uma subida de preços.

  5. 5Escassez (Shortage)Falta de um bem face à procura.

    No artigo, a escassez é de diesel, combustível para aviões e gasolina. Al Ghais atribui-a à falta de investimento em infraestruturas. Numa economia de mercado, a escassez faz subir o preço, o que atrai investimento; quando o estado ou acordos políticos travam esse investimento, a falta prolonga-se.

  6. 6Investimento (Investment)Dinheiro aplicado hoje para produzir no futuro.

    É gastar agora em exploração, refinarias ou distribuição na esperança de retorno mais tarde. O artigo mostra a OPEP a dizer que investe em petróleo, gás e outras fontes. O ponto central é que ninguém investe se não puder contar com o retorno, e é aí que as políticas energéticas entram.

  7. 7Preço como sinal (Price signal)O preço mostra onde falta e onde sobra.

    Quando um bem escasseia, o preço sobe e avisa produtores e consumidores para ajustarem o comportamento. O artigo não usa esta expressão, mas o argumento de Al Ghais depende dela: sem investimento, o sinal não chega ou chega tarde. Preços administrados ou travados por decisão política atrasam esse ajuste.