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Obama em Lisboa: 10 mil aplausos a quem bombardeou
SitePropaganda estatal· Expresso· Ana França

Obama em Lisboa: 10 mil aplausos a quem bombardeou

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O expresso amplifica a passagem de Barack Obama pelo Meo Arena, em Lisboa, como se fosse uma aula de moral - cerca de 10 mil pessoas rendidas, aplausos de pé e suspiros de "quem me dera que ele ainda fosse o Presidente" - e usa a conversa sobre liderança para vender o que interessa ao poder: "quadro regulatório" para a inteligência artificial, distribuição dos benefícios tecnológicos decidida de cima e a paciência infinita com a lentidão das instituições que ninguém elegeu para governar o dia a dia de quem trabalha. O ângulo é simpático, a fatura é de quem paga: mais regras, mais burocracia e menos escolha para quem decide por si, tudo embrulhado no retrato de um ex-presidente que ordenou bombardeamentos apresentado como voz da consciência e da moderação.

Fonte de propaganda estatal

Conteúdo difundido por uma fonte financiada, protegida ou condicionada pelo estado, usado para normalizar coerção, burocracia e dependência política.

Culto da personalidade - A peça transforma um político numa figura de devoção: a entrada é encenada para agradar ("Obama entra sorridente e com um fato cinzento de verão. Para recolher a simpatia de alguém que, nunca se sabe, não estivesse ainda rendido") e o final é entregue a testemunhos de adoração ("Adorei, adorei, foi mesmo inspirador"), de modo que o registo político de quem ordenou bombardeamentos desaparece atrás do carisma.
Normalização da coerção estatal como dádiva - Uma medida imposta pelo estado é apresentada como conquista a preservar, na voz da jurista que elogia "impor o sistema público de saúde, o Obamacare" e avisa que "temos de continuar a lutar para as manter", enquanto o debate sobre inteligência artificial fica reduzido à necessidade de um "quadro regulatório"; em nenhum momento se pergunta quem é obrigado a pagar nem quem perde a escolha.
Eufemismo e branqueamento da responsabilidade própria - O bombardeamento da Síria é despachado como "um de vários episódios da sua experiência governativa" e a violação da lei é admitida para logo ser dissolvida numa justificação ("e, no entanto, havia um sofrimento terrível a decorrer na Síria"), deixando o leitor com o enquadramento do próprio orador em vez do custo real da decisão.

Análise Libertária

Dez mil pessoas encheram o Meo Arena, em Lisboa, para ouvir Barack Obama. No fim, uma ovação de pé e frases como "adorei, adorei, foi mesmo inspirador". O expresso publica a noite como um acontecimento redentor, e é isso que vale a pena examinar: o que aplaude uma plateia quando aplaude um antigo presidente.

Não é só simpatia. É a ideia de que alguém, por cima de nós, devia continuar a decidir por nós. "Quem me dera que ele ainda fosse o Presidente" - o suspiro recolhido à saída diz mais sobre a política do que o discurso. Um homem que saiu da cadeira do poder há anos continua a ser tratado como solução, e a política reduz-se a esperar que o salvador certo volte. Todo o poder assenta, no fim, em quem aceita ser governado - e noites como esta renovam essa aceitação com aplausos.

Obama falou de inteligência artificial e do que falta fazer. A resposta dele foi a habitual: um "quadro regulatório", "ajustamentos" para garantir que "os benefícios são amplamente distribuídos". Ninguém pergunta quem decide esses ajustamentos, com que autoridade, nem por que razão um grupo de pessoas sentadas em gabinetes sabe melhor do que as outras o que vai acontecer à tecnologia nos próximos anos. O progresso corre; a resposta é sempre mais uma regra, mais um comité. Ele próprio admite que as instituições são lentas, que são precisas "umas 50 reuniões" para fazer "a coisa mais simples" - e, em vez de concluir que talvez se deva tirar poder a essas instituições, quer entregar-lhes ainda mais. A mesma pessoa que avisa que "o algoritmo não vai dar as respostas certas" quer que a decisão passe para um regulador humano, como se o problema fosse a máquina e não o poder de mandar.

Há uma ironia a mais. Obama não poupa os tecnocratas e burocratas da sua própria área política: "a esquerda é capaz de falar destes ideais maravilhosos, mas nem sempre consegue que se tornem realidade". Boa observação, vinda de quem passou oito anos a construir exatamente essa máquina. E é revelador o que se considera aceitável dizer numa sala destas. Aquilo que passa por debate público hoje é o intervalo do que é aceitável dizer, e dentro dele cabe pedir mais regulação, mais redistribuição e mais estado - nunca menos.

Depois há o momento que o texto desliza como se fosse conversa de circunstância. Obama conta que decidiu bombardear a Síria e diz: "Tecnicamente, o presidente não deveria iniciar uma guerra sem a aprovação do parlamento". Acrescenta que "havia um sofrimento terrível a decorrer na Síria". Nenhuma consequência, nenhum nome, nenhuma responsabilidade. Na mesma noite em que se fala de compaixão e de humanidade comum, a sala aplaude quem admite ter ordenado bombardeamentos sem autorização legal, e o próprio o confessa em voz alta. Aplausos para a guerra, desde que a voz seja simpática e o fato cinzento de verão.

A parte sobre as profissões desvalorizadas é a mais honesta do discurso. Obama nota que o cuidado e o ensino rendem pouco e por isso lhes damos pouco valor, e que "não pagamos às mulheres aquilo que deveríamos pagar-lhes". Há aqui uma verdade simples: as pessoas pagam pelo que valorizam. Mas a conclusão que ele tira é que devemos repensar a eficiência - não que cada um deva escolher livremente o que valoriza, sem que o estado lhe diga o que é importante. E sobre os líderes tecnológicos que "não leem romances" e têm "uma inteligência restrita", a piada é fácil; menos fácil é explicar porque é que esses mesmos empresários passam a vida a pedir regras que os protejam da concorrência.

A questão não é se Obama fala bem. Fala. A questão é que dez mil pessoas pagaram para assistir à celebração de um homem que passou anos a mandar, a regular e a decidir por outros, e saíram com saudade de que voltasse a mandar. O sistema que ele descreve como frágil pede renovação contínua - e a renovação, para esta plateia, passa por confiar mais no próximo que sobe ao palco. Enquanto a política for isto, a espera por alguém que decida em nosso nome continuaremos a chamar-lhe inspiração. A alternativa é mais seca e menos glamorosa: devolver a decisão a cada pessoa e deixar de aplaudir quem promete tomar conta de nós.

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  • Empresários e gestores que compram bilhetes para palestras de "liderança" - Querem ver como um antigo presidente transforma a passagem pelo poder numa marca rentável, e como um fórum de elite vende inspiração sem uma pergunta incómoda sobre as decisões da sua presidência.
  • Estudantes de comunicação ou leitores atentos aos media - Encontram aqui um caso perfeito para estudar como o expresso amplifica uma sessão paga, trocando verificação por aplausos e suspiros da plateia.
  • Libertários e céticos do poder - Interessa-lhes o contraste entre a multidão que suspira por "democracia" e a fala do próprio orador, que admite ter ordenado um bombardeamento na Síria sem aprovação do parlamento.

  1. 1DemocraciaSistema em que as decisões são tomadas por representantes eleitos.

    No artigo, Obama diz que a democracia é um período curto na História, "um piscar de olhos", e que é frágil e tem de ser renovada. O problema é que ninguém pergunta quem paga a conta das decisões desses representantes. Um exemplo simples: se uma câmara decide gastar dinheiro em obras, o morador paga a fatura, mesmo que discorde.

  2. 2RegulaçãoConjunto de regras impostas pelo estado a uma atividade.

    Obama defende um "quadro regulatório" para a inteligência artificial, porque os modelos evoluem mais depressa do que as instituições. Quem escreve as regras decide o que se pode fazer e quem fica de fora. Um exemplo: se o estado proíbe certos programas, quem tem ligações ao poder consegue licenças e os pequenos ficam excluídos.

  3. 3Inteligência artificialProgramas de computador que aprendem e executam tarefas sozinhos.

    No artigo, Obama diz que estas máquinas fazem tarefas de advogados, contabilistas e médicos mais depressa porque não dormem nem comem. Também avisa que alguém pode descarregar um modelo e usá-lo para criar um novo agente patogénico. A questão é quem controla a ferramenta e com que autorização.

  4. 4PolarizaçãoDivisão crescente entre grupos que se recusam a ouvir-se.

    O artigo descreve uma política em que rejeitar o adversário é o principal motivo para votar. Obama fala de pessoas que se refugiam "na tribo" e no nacionalismo extremo. O resultado é que o debate sobre custos, impostos e liberdades desaparece e fica só a luta entre equipas.

  5. 5Tecnocraciagoverno entregue a especialistas que decidem por todos.

    Obama acusa a sua própria área política de ser "tecnocrática e burocrática": fala de ideais bonitos que não se tornam realidade. Na prática, quem decide são peritos e funcionários, não os indivíduos afetados. Um exemplo: uma comissão decide onde construir habitação e quem tem acesso a ela.

  6. 6BurocraciaMáquina de procedimentos e reuniões que atrasa decisões.

    Obama diz que, para fazer a coisa mais simples, são precisas umas 50 reuniões e demora imenso tempo. O cidadão que quer uma casa fica frustrado porque o processo não anda. O custo não é só o tempo: é a vida que fica parada à espera de autorização.

  7. 7HierarquiaOrdem em que uns mandam e outros obedecem.

    Obama fala de esforços para reafirmar "as velhas hierarquias, as velhas castas" e de uma nostalgia dos tempos em que os negros ficavam calados e as mulheres sabiam o seu lugar. A hierarquia imposta por lei ou costume retira ao indivíduo a decisão sobre a própria vida. Um exemplo: uma lei que impede alguém de trabalhar na profissão que escolheu.

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