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Dívida pública cai à boleia da inflação, não do mérito
SitePropaganda estatal· Expresso· Gonçalo Almeida

Dívida pública cai à boleia da inflação, não do mérito

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O expresso publica que a dívida pública portuguesa terminou 2025 nos 89,2% do PIB, a 1,5 pontos percentuais da média da zona euro, e embrulha o número em convergência virtuosa, como se o rácio medisse a competência de quem governa. Fica de fora o que o próprio dado mostra: o estado continua a dever 275,1 mil milhões de euros, praticamente o mesmo que em 2022, e o que desce é o peso dessa dívida face a um PIB que engorda sobretudo com a subida dos preços - alívio nas contas e aperto para quem paga a inflação todos os meses. É essa troca, contada como boa notícia, que o jornal serve ao estado.

Fonte de propaganda estatal

Conteúdo difundido por uma fonte financiada, protegida ou condicionada pelo estado, usado para normalizar coerção, burocracia e dependência política.

Deslocação da métrica - O êxito é anunciado em percentagem do PIB e o valor efetivamente devido fica para o corpo do texto: "O rácio da dívida pública portuguesa terminou 2025 nos 89,2% do PIB" é o número que faz o título, enquanto mais abaixo se admite que "o estado devia 275,1 mil milhões de euros" e "mais 4,2 mil milhões de euros do que um ano antes" - a dívida aumentou, só a régua cresceu mais depressa, inflada pela subida dos preços.
Atribuição de mérito governamental - A queda do rácio é apresentada como obra de quem está no poder, com metas e previsões próprias - "prevê que a ultrapassagem aconteça já este ano" e "conta com o crescimento do PIB nominal e com o excedente primário" - quando o próprio texto mostra que o essencial veio do crescimento nominal, ou seja, sobretudo de uma economia medida a preços mais altos e não de uma escolha de quem governa.
Eufemismo orçamental - O dinheiro cobrado à força aparece como receita e a cobrança acima do gasto como virtude: "as contas públicas fecharam com um excedente de 2.045 milhões de euros, o terceiro ano seguido em que as receitas superaram as despesas" - em nenhum momento se diz a quem foi retirado esse dinheiro, nem que se trata de verbas que saíram do bolso de pessoas que não escolheram entregá-las.

Análise Libertária

O eurostat divulgou esta quarta-feira, na segunda notificação do procedimento por défices excessivos, que o rácio da dívida pública portuguesa fechou 2025 nos 89,2% do PIB. Fica a 1,5 pontos percentuais da média da zona euro, uma distância que obriga a recuar a 2005 para encontrar semelhante. O expresso amplifica o feito com o entusiasmo do costume: o governo espera 87,5% em 2026 e 84,5% em 2027, e o país prepara-se para apresentar, no próximo ano, uma dívida abaixo da média europeia pela primeira vez desde 2004.

Só que o mesmo texto entrega os números que desmontam a festa. No final de 2025, o estado devia 275,1 mil milhões de euros - praticamente o mesmo que em 2022 e mais 4,2 mil milhões do que um ano antes. A economia, medida a preços correntes, passou para 308,5 mil milhões, com um crescimento superior a um quarto em três anos. O rácio não desceu porque o estado passou a dever menos. Desceu porque a régua com que se mede a dívida engordou.

E engordou, em boa parte, com a subida dos preços. O próprio artigo admite que a inflação dos últimos anos contribuiu para que o PIB crescesse mais depressa do que a dívida. Não é um pormenor de estatística: é a perda de poder de compra de quem trabalha e de quem poupa a fazer o trabalho que os cortes de despesa deveriam fazer. A inflação não cai do céu. É o que acontece quando há mais moeda a circular e cada nota compra menos. O rácio melhora para o estado e piora para quem paga a mercearia.

Depois há o custo. A taxa a dez anos ultrapassou os 4% no início de outubro e a despesa com juros deverá passar de 1,9% do PIB este ano para 2,1% em 2027, segundo o conselho das finanças públicas. É dinheiro que era dos "contribuintes" e sai por via fiscal para remunerar quem emprestou ao estado. E quem emprestou? De acordo com o banco de portugal, o aumento da dívida no ano passado deveu-se sobretudo às poupanças das famílias aplicadas em certificados de aforro e à emissão de obrigações do tesouro. Ou seja: o estado financia-se com a poupança das mesmas pessoas a quem cobra, e paga os juros com mais cobrança.

O excedente de 2.045 milhões de euros em 2025, o terceiro ano seguido de receitas acima das despesas, não travou o endividamento em euros. E o plano para os anos seguintes assenta, segundo o ministério das finanças, no crescimento do PIB nominal e no excedente primário - isto é, em boa medida na moeda a perder valor. Repare-se no modo como tudo é apresentado: previsões do governo e da comissão europeia, um relatório do orçamento, um procedimento aberto em Bruxelas. A dívida aparece como um dado meteorológico que técnicos competentes gerem, e não como o resultado de décadas de despesa decidida por quem não paga a fatura. É a transformação de uma escolha política numa questão de peritos.

Portugal tem hoje o sexto maior peso da dívida na UE, cerca de 11 pontos abaixo de Espanha e 26 abaixo de França. A Finlândia, que em 2022 estava muito melhor, encontra-se agora a menos de um ponto. Três anos de inflação bastaram para mudar o retrato sem que a dívida em euros recuasse. É o mesmo mecanismo que sustenta a conversa sobre convergência: um PIB que engorda com a expansão monetária e melhora os gráficos sem que ninguém produza mais.

Em 2020, no ano da "pandemia", o rácio chegou aos 134,1% do PIB. De lá para cá caiu 45 pontos. Nada disso resultou de um estado mais pequeno: resultou de um estado que continua a gastar e que descobriu que a inflação lhe paga a conta em percentagem. Se 2026 confirmar a ultrapassagem da média da zona euro, o governo terá o seu troféu. A fatura fica com quem viu o salário comprar menos em cada ano.

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  • Um jovem casal a comprar a primeira casa com crédito à taxa variável - Quer perceber porque é que a dívida do estado parece mais pequena quando a prestação que paga todos os meses não acompanha o mesmo alívio.
  • Um tesoureiro de uma câmara municipal - Interessa-lhe ver como se calcula o rácio da dívida e porque é que a subida dos preços melhora a fotografia das contas sem um euro a mais de receita real.
  • Um delegado sindical que negoceia salários - Encontra aqui o argumento para exigir que a melhoria do indicador chegue aos recibos, já que a descida do rácio se fez sobretudo à custa do poder de compra de quem paga a dívida.

  1. 1Rácio da dívida pública (debt-to-GDP ratio)O peso da dívida do estado comparado com o tamanho da economia.

    Mede quanto o estado deve por cada 100 euros que o país produz num ano. Se o estado deve 89,2% do PIB, deve 89,2 euros por cada 100 euros de produção anual. O artigo usa este número para dizer que Portugal está mais perto da média da zona euro. O truque é que o rácio pode descer sem a dívida baixar: basta a economia crescer mais depressa, mesmo que esse crescimento seja sobretudo preços a subir.

  2. 2PIB nominal (nominal GDP)O valor de tudo o que o país produz, medido a preços do momento.

    É a soma da produção sem descontar a subida dos preços. Por isso, quando a inflação é alta, o PIB nominal cresce mesmo que se produza o mesmo. No artigo, o PIB português passou para 308,5 mil milhões de euros e esse aumento ajudou a baixar o rácio da dívida. É a diferença entre parecer mais rico e ser mais rico.

  3. 3Inflação (inflation)A subida generalizada dos preços, que faz o dinheiro valer menos.

    Quando os preços sobem, o mesmo salário compra menos. O artigo admite que a inflação dos últimos anos fez o PIB crescer mais depressa do que a dívida. Ou seja, o rácio melhora em parte porque a economia aparece maior em euros, não porque o estado tenha devolvido dinheiro ou gasto menos. Quem paga a diferença é quem vê o salário perder poder de compra.

  4. 4Excedente orçamental (budget surplus)Quando o estado cobra mais do que gasta num ano.

    Em 2025, as contas públicas portuguesas fecharam com um excedente de 2.045 milhões de euros. Isso significa que o dinheiro retirado à força em impostos superou a despesa. Não é sinal de generosidade: é sinal de que se cobrou mais do que se gastou. O artigo apresenta o excedente como boa gestão, mas quem financiou esse resultado foram os "contribuintes".

  5. 5Despesa com juros (interest expense)O dinheiro que o estado paga a quem lhe emprestou.

    Quando o estado se endivida, paga juros sobre essa dívida. O artigo diz que essa despesa deve passar de 1,9% do PIB este ano para 2,1% em 2027. É dinheiro que sai dos impostos e vai para credores, sem passar por escolas ou estradas. Se os juros sobem, o estado tem de cobrar mais ou cortar noutro lado.

  6. 6Certificados de aforro (savings certificates)Empréstimos que os particulares fazem ao estado.

    As famílias entregam dinheiro ao estado e recebem juros. O artigo atribui parte do aumento da dívida em 2025 às poupanças das famílias aplicadas nestes certificados. É dívida pública na mesma: o estado fica a dever esse dinheiro. A diferença é que o credor é o cidadão comum, não um banco estrangeiro.

  7. 7Zona euro (euro area)O conjunto de países que usam o euro e partilham regras monetárias.

    O artigo compara o rácio português com a média destes países. A média subiu para 87,7% do PIB em 2025, enquanto a portuguesa desceu para 89,2%. A comparação serve para mostrar convergência, mas não diz nada sobre o custo para quem paga os impostos que sustentam essa dívida. A moeda é decidida em conjunto, sobretudo pelo banco central europeu, e cada país perde controlo sobre ela.

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